*



[ o ]

[ Ode I-XI "Carpe Diem" - Quintus Horatius Flaccus (65-8 AC, poeta) ]


Tu ne quaesieris - cire nefas - quem mihi, quem tibi finem di dederint, Leuconoë, nec Babylonios temptaris numeros. ut melius, quicquid erit, pati! seu plures hiemes, seu tribuit Iuppiter ultimam, quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare Tyrhenum. Sapias, vina liques, et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.




[ Ode I-XI "Carpe Diem" - Quintus Horatius Flaccus (65-8 AC, poeta) ]


Não procures, Leuconoe, - saber é nefasto - que fim a nós os deuses destinaram. não consultes sequer os números babilónicos: Melhor é aceitar! E venha o que vier! Quer Júpiter te dê ainda muitos Invernos, quer seja o derradeiro este que ora desfaz nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno, vive com sensatez destilando o teu vinho e, como a vida é breve, encurta a longa esp'rança. De inveja o tempo voa enquanto nós falamos (enquanto vivemos, o tempo, invejoso, corre depressa): trata pois de colher o dia, o dia de hoje, que nunca o de amanhã merece confiança. (Desfrute do momento de hoje, acreditando minimamente no amanhã.)



***~~~



Kings Of Convenience - Cayman Islands

Through the alleyways to cool off in the shadows / then into the street following the water / there's a bearded man paddling in his canoe / looks as if he has come all the way from the cayman islands

these canals, it seems, they all go in circles / places look the same, and we're the only difference / the wind is in your hair, it's covering my view / I'm holding on to you, on a bike we've hired until tomorrow

if only they could see, if only they had been here / they would understand, how someone could have chosen / to go the length I've gone, to spend just one day riding / holding on to you, I never thought it would be this clear



Kings Of Convenience - Ilhas Cayman

Através dos becos para acalmar nas sombras / Depois na rua seguindo a água / Ali há um homem barbudo remando em sua canoa / Até parece que ele veio lá das Ilhas Cayman

Estes canais, parece, eles todos são em círculos / Os lugares parecem os mesmos,e nós somos a única diferença / O vento está em seu cabelo, está cobrindo minha visão / Estou me segurando em você, / numa bicicleta que nós alugamos até amanhã

Se ao menos eles pudessem ver, se ao menos eles estivessem aqui / Eles entenderiam como alguém pode ter escolhido / Ir tão longe quanto eu fui, para passar somente um dia passeando / Segurando em você, eu nunca pensei que seria tão claro




***~~~




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[ Definitivamente, não vivo no meio-termo, na tepidez da covardia assumida, às sombras da ignorância de acreditar que tudo é Bom, Verdadeiro e Belo, só por que alguém disse. ]

















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[Segunda-feira, Abril 26, 2010]


Admito que eu sou antiquada e crítica demais em se tratando de novidades cibernéticas. Já fui a que jamais entraria no Orkut, a que não usaria tanto assim o MSN e a que não se interessaria nunca pela socialização dos meus pensamentos e sentimentos. Mas então chego aqui, diferente do que fui... Apesar disso, afirmo peremptoriamente: não cederei ao twitter! Aquilo lá é um vaso sanitário para frases de 100 caracteres que não dizem nada! (“dã, acabei de tomar um café, beijos” – E DAÍ?)! É geralmente utilizado por pessoas que não sabem escrever (em sua maioria) com mais de uma linha. Mas não é preconceito total... As pessoas públicas (músicos, jornalistas, escritores e alguns bons samaritanos entre a totalidade) fazem daquilo ali um lugar a ser salvo um dia.

Preconceitos à parte,

nunca me opus à idéia de ter um blog. Tal idéia começou em 2002, 2003, quando um queridííííssimo amigo (Montanaro!) sem querer me deu a idéia. E foi como uma mão na roda para mim... Afinal, quem não precisa externar seus pensamentos? E desde então tenho essa conta aqui. Valeu, Monta!

Desde criança sempre idolatrei (quando minha noção de “idolatrar” não seguia à risca, mas valia) meus professores de língua portuguesa (de filosofia também!). Não me lembro em que série começam a ensiná-la às crianças, mas não houve exceção – cada professora e cada professor me faziam chorar no último dia de aula. Eu pouco dava atenção às aulas de matemática, química, física (etc)..., apesar de sempre ter tido notas boas ou razoáveis. Mas cada ano era sempre dele – o professor de língua portuguesa. As equações não eram difíceis, mas não mexiam comigo. Mas, se você viesse até mim com conjugações, leituras obrigatórias para provas, artigos, predicativo do sujeito e por aí vai, pode estar certo de que ali eu me encontraria sempre. Tirava 10 sempre. Nunca entendi quem não conseguia aprender aquilo. É A NOSSA LÍNGUA, CARAMBA!


Sempre gostei de linguagem. Sempre gostei de ler. Enquanto todos viravam as costas para o professor (escola de filhinho de papai é assim: preocupação zero e falta de respeito até com o professor... afinal, ‘eu to pagano! ’.), eu ouvia tudo. Cheguei a me apaixonar por um professor, no segundo ano (e não é que ele foi meu professor também no meu primeiro ano de Letras, na faculdade? Quase morri!). a inteligência deles me fascina. O FALAR BEM me fascina.

Como eu ia dizendo, sempre admirei a LINGUAGEM, com suas regras e significâncias. Gosto de escrever. Não significa dizer ‘oh, como eu sou pedante!’, porque até eu tenho meus errinhos gráficos. Mas não viro as costas para o TENTAR APRENDER sempre. Não me conformo em beirar o analfabetismo, em pronunciar “estou meia doente” ou “seje menas burra”, ou “ela DAR muito”, ou “ENTAM, o dia hoje ESTAR lindo!”. Credo!


Como disse antes, gosto de escrever. É como uma bola de neve – uma palavra puxa a outra -, e quando vejo, já escrevi um monte! Cheguei até a escrever uma estória (quem sabe eu a venda um dia para algum escritor...). Enfim. Não pela certeza que alguém leria, mas por gostar de escrever sobre qualquer coisa, criei um blog. O tenho até hoje não porque acham importantíssimo aquilo que narro, mas porque simplesmente eu gosto de tê-lo. Um grão de areia numa praia faz diferença, uma estrela no céu brilha apesar de não ser a única, e eu me satisfaço com isso aqui se pelo menos uma pessoa em um milhão gostar de saber do que penso. E sei que isso acontece.

É isso...

Então...

Não satisfeita, criei um segundo blog, como anexo deste aqui. Diferente. Nele, arquivarei coisas diferentes, quiçá músicas, poemas e prosas que me atraem, que fizeram parte da minha vida. E outras coisas também. Criei o blog como uma continuação do meu primeiro. Eu poderia fazer tudo neste aqui, mas aquele lá tem a vantagem de possuir espaço para fotos. Se eu fizer isso aqui, o site fica muito “pesado”...

Por falar em fotos, adquirimos uma máquina nova. Agora, muitas e muitas fotos!
Ok. Até!

http://bolerobluesss.blogspot.com/

Por sed non satiata * 5:34 PM

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[Segunda-feira, Abril 19, 2010]




"quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e um olhar vira romance"

[Paulo Leminski]


#)

Me orgulho de chegar até aqui com meus sentimentos puros, como foram nos anos anteriores. Já são 4 anos...! É muito bom ter alguém com quem compartilhar o amanhecer e o sono à noite. Ter alguém para si (sem possuí-lo, mas para amá-lo exclusivamente) é muito mais gostoso do que a incerteza de quem anda de rua em rua, ainda à procura. Saber que nos vôos e nas quedas existe alguém ali, com o mesmo cheiro, o mesmo sorriso, o mesmo azul no olho e branco na pele, esperando com mil beijos, mãos quentes e abraço apertado. Pena que tem gente que não respeita relacionamento, que não entende aquilo chamado "respeito" (hãn, hãn?) e acha que pode chegar para você e dizer: "quero ter um caso com você". É muita falta de valores... É mais um sujeito com o complexo de Édipo mal resolvido, isso sim! Hoje em dia eu mandaria tomar no cu (pronto, perdeu-se o romantismo do post.). Mas, minha amiga, se você não é boca suja desse jeito, faça o "metido a don juan" de otário por um tempo. O feitiço rapidinho vira contra o feiticeiro. Quer sacanear, pois será sacaneado. Ninguém tem o direito de roubar aquilo que já é concreto demais para ser partido. Ninguém deveria fazer isso. Há tanta gente no mundo, afinal! Para quê querer a pessoa do outro?


Dia gostoso... mistura de saudade antecipada - grudada o dia inteiro com o filhote, só vou vê-lo novamente no dia 24, quando voltamos a Natal...; descanso - vendo desenhos e mais desenhos na cama; tirando mil fotos nostálgicas; miojo; coca-cola; cigarrettes; gente, que menina não-saudável é essa?
Arrumando as malas em plena insônia.


Por sed non satiata * 11:08 PM

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Foi como se tivessem lido o meu pensamento: "poxa, sei que é pedir muito, mas bem que poderiam tocar Jamie Cullum no Bossa & Jazz..."

Durante os 4 dias de festival eu ouvi os músicos mais surreais tocarem o som dos mais renomados "monstros" do blues, do jazz e da bossa. Mas minha humilde paixão por um (quem sabe) cantor de jazz novinho me fazia esperar o inesperado. (Também esperei ouvir Chico nas interpretações, mas aí eu sabia que seria mais provável de acontecer, mesmo tendo cantado as mais 'malhadas'.)

http://www.youtube.com/watch?v=8RXVIMjNJCg

Eis então que Mad Dogs sobe ao palco fazendo um belíssimo show (CBI todo trabalhado no Seu Madruga...), mas até aí não contei nenhuma grande novidade...

...e entre as primeiras músicas da sua apresentação, ouço o comecinho de uma música que na hora só me pareceu familiar, pois demorou a cair a ficha. Ah, e quando ela caiu... Ninguém fez idéia do que eu estava sentindo naquele momento. Cantaram lindamente, numa versão muitíssimo fiel à de Jamie. Jamie Cullum no festival Bossa & Jazz, vocês têm noção?

Enfim. Foram 4 dias de ESPETÁCULOS espetaculares. Dã....
Os melhores guitarristas, pianistas, baixistas, saxofonistas, gaitistas... vozes incríveis e pessoas competentes na bateria. E que repertório, viu?

Minhas poucas queixas se limitam ao frio absurdo que fazia ali dentro (exagero de ar condicionado...!!) e à falta daquele “néctar dos deuses” (fresca!), tão condizente com hábito de ouvir tais estilos musicais, que simplesmente não vi no cardápio do bar lá dentro e nem no camarim... (no camarim eu até vi): onde estava o vinho??? Que pecado! Oh!


para vocês conhecerem:

http://www.youtube.com/watch?v=vMMDJGS7Xjs&feature=channel

http://www.youtube.com/watch?v=m0VNsv-3HTw&feature=channel

http://www.youtube.com/watch?v=F2p9DU8WjQY&feature=related

uma de minhas prediletas: http://www.youtube.com/watch?v=F1r6GcPqFSo

outra das prediletas: http://www.youtube.com/watch?v=inUwroOE-f8&feature=related

a "pop"... http://www.youtube.com/watch?v=ZNGPzi8NM3M&feature=related

e não deixem de ouvir a versão dele de NATURE BOY... ai!

Por sed non satiata * 2:21 PM

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[Domingo, Abril 18, 2010]


Na terça-feira viajaremos... Em "lua de mel", mais uma. No dia 21 comemoraremos o nosso casamento. São tantas lembranças...são quatro anos, já...



21 de Abril.
Dia de Tiradentes, símbolo de liberdade (e libertação...), que se relaciona inteiramente com o que representa pra mim, nesse dia. Há 3 anos nos casamos. Há quatro nos conhecemos. Estamos comemorando mais um aniversário de, sem adentrar a tautologia, muito e muito amor, muita e muita amizade, e todas as perfeições que um casal de apaixonados pode gerar. Você me deu âmago, essência, amor - que eu pensava em outros tempos sentir, mas não -, me deu ar, me deu fruto, me deu lágrimas que antes só as tinha na melancolia. Hoje, as tenho em êxtase. Evoluímos a cada dia, amadurecemos a cada minuto. Não somos como éramos, mas com certeza estamos em um patamar muito melhor. é muito bom poder crescer, envelhecer, amadurecer com você.

My soldier of fortune.

Ao fundo, Beatriz – Chico Buarque. Foi essa musica que tocou no casamento, esta que você em segredo pediu que o pianista tocasse para me fazer uma surpresa, na hora das alianças.... Ai, to chorando, hehe.





Te amo! Que a gente se divirta muito.



"Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul, violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, o quarto catedral, onde nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiros os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto... "[ Raduan Nassar, In:"A Lavoura arcaica" ]

Por sed non satiata * 4:16 PM

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[Quarta-feira, Abril 14, 2010]


"Amor não tem que se acabar
Eu quero e sei que vou ficar
Até o fim eu vou te amar
Até que a vida em mim resolva se apagar

O amor é como uma rosa num jardim
A gente cuida, a gente olha
A gente deixa o sol bater
Pra crescer, pra crescer
A rosa do amor tem sempre que crescer
A rosa do amor não vai despetalar
Pra quem cuida bem da rosa
Pra quem sabe cultivar"

[Elis Regina - Amor até o fim]





Distância e tempo nunca interferirão naquilo que realmente existe, longe de aparência e interesses. Você é o que? Irmão? O que será que fomos em outras vidas? Sei que nesta guardo você na gaveta do eterno, do indissolúvel. Te amo!


"As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague
se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno, o pão, o vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver
As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele
Se ha neve cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor
As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali
Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera
No insistente perfume de alguma coisa chamada amor."

Por sed non satiata * 7:25 PM

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Mil coisas para estudar, trabalhos, resumos, correções... E uma enxaqueca cruel demais para quem não tem a semana desocupada. Olhos ardendo, cabeça explodindo... E ainda inventei mais coisa para fazer. É muita bossa e muito jazz para tanto (por sorte, acaba sendo muito bom)!

By the way, ando ocupando a cabecinha com aquilo que gosto. Filosofia! Estou relendo: o homem medíocre.





“Muitos nascem: poucos vivem. Os homens sem personalidade são inumeráveis e vegetam, moldados pelo meio, como cera fundida no cadinho social. Sua moralidade de catecismo e sua inteligência quadriculada, os constrangem a uma perpétua disciplina do pensamento e da conduta; sua existência é negativa como unidade social.” (50)

“O homem medíocre é uma sombra projetada pela sociedade; é, por essência, imitativo, e está perfeitamente adaptado ara viver em rebanho, refletindo rotinas, preconceitos e dogmatismos reconhecidamente úteis para a domesticidade” (58)


Os homens medíocres, afirma Ingenieros:


“São rotineiros, honestos, mansos; pensam com a cabeça dos outros, condividem a hipocrisia moral alheia, e ajustam o seu caráter às domesticidades convencionais.

Estão fora de sua órbita o engenho, a virtude e a dignidade, privilégio dos caracteres excelentes; sofrem, por isso, e os desdenham. São cegos para as auroras; ignoram a quimera do artista, o sonho do sábio e a paixão do apóstolo. Condenados a vegetar, não suspeitam que existe o infinito, para além dos seus horizontes.

(...)

Não vivem a sua vida para si mesmos, senão para o fantasma que projetam na opinião dos seus semelhantes. Carecem de linha; sua personalidade se desvanece, como um traço de carvão sob a ação do esfuminho, até desaparecer por completo. Trocam a sua honra por uma prebenda, e fecham a sua dignidade com chave, para evitar um perigo; renunciaram a viver, ao invés de gritar a verdade em face do erro de muitos. Seu cérebro e seu coração estão entorpecidos igualmente. Como pólos de um imã gasto.

(...)

Subtraídos à curiosidade do sábio, pela couraça da sua insignificância, fortificam-se na coesão do total; por isso, a mediocridade é moralmente perigosa, e o seu conjunto é nocivo em certos momentos da história: quando reina o clima da mediocridade. (65-66)

(...)

São prosaicos. Não têm ânsias de perfeição: a ausência de idéias impede-os de pôr, em seus atos, o grão de sal que profetiza a vida. (76)

(...)

Vivem uma vida que não é viver. Crescem e morrem como plantas; não necessitam ser curiosos, nem observadores. São prudentes, por definição, de uma prudência desanimadora. Se um deles passasse junto ao campanário inclinado de Piza, afastar-se-ia, temendo morrer esmagado. (79)
(...)

No verdadeiro homem medíocre, a cabeça é um simples adorno do corpo. Se nos ouve dizer que serve para pensar, julga que estamos loucos” (81).




E-n-f-i-m.

Olho à minha volta e me assusto com a mediocridade em que estamos submersos. Ela campeia livremente pelo campus, presente em luminares titulados e não-titulados. Fico a pensar em que medida sou cúmplice e também medíocre. Resta o consolo de ousar pensar o utópico e inexeqüível.

Quanto às palavras de Ingenieros, que cada um tire as próprias conclusões.
Esse é um dos meus livros mais usados, grifados e relidos. E foi um presente muito especial.
Mas leiam, leiam, leiam esse livro! E garanto que todo mundo se identificará... Sempre temos algo de “homem medíocre” dentro de nós.




Por sed non satiata * 5:16 PM

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Admito. Eu adoooooro... mas continuo batendo o pé - só por passatempo, e não por profissão. Por zelo, e não por escravidão. Por gostar de ter e viver em uma casinha de bonecas, e não por seguir a tradição (cobrança) das mães e sogras do tempo do ronca... Oras. Tenho pouco talento para Amélia. Tenho muito neurônio para não desperdiçar.

Por sed non satiata * 2:01 AM

Comments:
[Terça-feira, Abril 13, 2010]


Cada um sabe (à sua maneira) quando termina o limite do banal e começa o limite do essencial. Para uns, não interessa o quão importante aquilo é para nós. Para mim, também pouco importa o que aquilo vale para outros (algumas coisas importam, mas me refiro à reciprocidade de alguns valores, quando comparados aos meus)... Deu para entender?

Subjetividade e privacidade deveriam ser respeitadas como são a religião, o sexo, e por aí vai.

Particularidade e personalidade deveriam “implicitar” a idéia de: não me imite, seja você. É, é com você mesmo que estou falando. (Você, provinciana). Vá ler um livro e procure outra coisa para fazer...

Hoje em dia a privacidade corrompida diverte e entretém mais os outros do que o possuidor dela. É mais divertido para os outros a minha privacidade do que para mim – e aí perdemos totalmente o sentido da palavra “privacidade”...


Por sed non satiata * 11:44 PM

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Coloquei um monte de sites novos ali do lado...
...para quem é mãe. Amei!

exemplo:

http://clubesapeca.blogspot.com/


brinde:

http://www.mangacompimenta.com/
http://www.acasaqueaminhavoqueria.com/


Por sed non satiata * 8:41 PM

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DA FELICIDADE

"Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!"

Mário Quintana





Por sed non satiata * 2:44 AM

Comments:
[Segunda-feira, Abril 12, 2010]


Cheiro, pele, toque, rotina que ancora meus sentidos e sentimentos, eternizando minha felicidade enquanto durar. Em todo o resto, o contrário. Sair da inércia, da estagnação, da mesmice; descartar o descartável, nem todo mundo é tão amigo assim..., nem todo mundo é tão necessário assim. Nem tudo precisa continuar como sempre. Solucionar, dissipar, distanciar-se. Dissolver tudo o que não for tão sólido assim; mudar os ares, mudar as cores, mudar as águas do rio que permanece sempre no mesmo lugar. Repito e repito, como lema. Aumentada a fé – aquela que é só minha, e de nenhuma instituição -, hey ho, let’s GO.

Por sed non satiata * 2:44 PM

Comments:
[Domingo, Abril 11, 2010]


Lancheiras das festinhas de 1 ano e 2 anos, respectivamente...

Circo Saltimbancos, rock'n roll

Fantoche recheadíssimo...


Cocoricó - Júlio

Mochila fofa!




Sempre bem recheadas...


Tendo idéias e fazendo planos para a terceira festinha ficar melhor do que as duas primeiras, juntas.

...porque o que realmente importa é a criatividade... esta, deixe sempre de herança para o seu filho.

Junto com virtudes, valores, ensinamentos, amor etc. etc.

tão lindoooooooooooooooo...



o tempo passa, e ele cresce tão rápido...






gordinhos! branquinhos! estampados na minha vida!




fim de semana perfeito com eles...unha e carne com o branquinho pequenininho.

filminhos, guloseimas, brigadeiro, dengos... - com o brancão.





Por sed non satiata * 5:24 PM

Comments:
[Sexta-feira, Abril 09, 2010]




Por sed non satiata * 9:17 PM

Comments:
[Terça-feira, Abril 06, 2010]


Como quem viaja no tempo e vê que dormiu mais do que pensava – por que não acordar cedo a partir de amanhã?

Como alguém que se dá conta que um milhão de coisas novas está para acontecer;

Como alguém que fareja o cheiro vindouro – é de felicidade...;

Como alguém que armazena numa gaveta fantasiosa as boas lembranças e as tarefas inadiáveis;

Como alguém que quase deixa passar despercebido o vento geladinho de hoje à noite, a chuva deliciosa – e milagrosa - e a janela posta displicentemente aberta – que molhe tudo! É chuva! - e como quem finge que hoje não sentiu o maior prazer já sentido...

...

Teço planos num emaranhado de linhas e tecidos.


Ah, a propósito, querido diário... Hoje tomei leite com Nescau, hidratei o cabelo, terminei um livro, usei a camisa do marido para ir à aula, planejei a festa do filho, ah, e escolhi minha terceira tatuagem. Porque a vida alheia é tosca quando exposta, mas tem sempre um(a) babaca que se interessa por ela... E tem sempre um(a) babaca maior ainda que faz o f-a-v-o-r de alimentar a curiosidade alheia e expor tanto em um blog. Eeeu? Eu não... A culpa é sempre dos outros! Eles, os nefastos... Heheheh.

Ouvindo: Marlene Dietrich

e chorando muitooooooooooooooooooooooooooo... a amo a amo a amo amoamoamoamoamAMOELA!




Por sed non satiata * 12:26 AM

Comments:
[Segunda-feira, Abril 05, 2010]


O fundo da garrafa não faz sombra, faz? Fico pensando no fundo. No fundo das coisas, no fundo do coração, no fundo do poço, no fundo da terra, no fundo do mar. E a minha vontade é de me movimentar, nem que seja para o fundo. Saber as coisas a fundo, pensar pensamentos a fundo. Olhar a pessoa no fundo dos olhos e tentar descobrir o que ela fará comigo caso lhe mostre o fundo do meu coração. Mas assim já estou querendo prever o futuro. O fundo é um lugar e pronto. Quero mais que espaço, quero o imaterial que às vezes pesa à mão. Conhece? O imaterial que toca o coração com o dedo. Imaterial com dedo. Isso mesmo. Quero o que não pode com aquele que posso, quero fazer uma faxina na minha alma com a vassoura, rodo e pano de chão. Quero ir ao supermercado e comprar desinfetante para minha mente e limpá-la. Entende agora o material-imaterial? Quero ultrapassar a barreira do tempo e fazer a vida ser MAIS feliz. Será isso possível ou sou apenas uma lunática cheia de querências?


Costumava escrever coisas pseudo legais, até o dia em que comecei a me apegar ao material e ter medo do imaterial. Assim quase esquecendo que a vida é hoje. Mas são “dores” que doem como tapas. São murros que levo mesmo estando em paz. E a roda gira, o carro anda, o tempo passa, a ironia é linda, o sarcasmo é nobre, e chove, eu acho um cabelo branco e penso que não plantei minha árvore. Mas já fui mãe. Sou mãe, sou árvore com frutos por conta própria. Antipatia e intolerância. Sinceridade e lealdade. Fiz amigos. Conheci meu amor gêmeo. Tenho a voz fina e irritante. Falo muita abobrinha. Sou muito frescurinha. Tenho hábitos terríveis e promessas ainda não cumpridas. Ainda não escrevi um livro. Não plantei ainda uma árvore. Mas guardo a semente em casa para a hora certa de plantá-la.


Por sed non satiata * 12:42 AM

Comments:
[Quinta-feira, Abril 01, 2010]


Por mais que eu passe longe daquele perfil “mulherzinha à moda antiga”, tenho meus dias de Amélia. Recuso-me a fazer do meu dia-a-dia uma rotina de vassoura, bobs no cabelo, luvas de plástico, água sanitária e paranóia. Detesto ser predestinada a ter a OBRIGAÇÃO de ser excelente dona de casa “ah, você tem que deixar a casa um brinco e saber cozinhar bem!”. Se quiser realmente me prender a isso, eu lhe respondo: “pois então volte para a casa da sua mãe, que lá você encontra tudinho”. Odeio essa visão machista do “ser esposa”. Não. Eu não faço esse tipo. Dói pensar que o tempo gasto em neuroses da casa eu poderia ter gasto em alguma leitura, com minha faculdade, com algum filme, com qualquer outra coisa (até me doar 24h ao meu filho) que não seja a chateação dos afazeres domésticos. Se reclamarem, respondo: não estudei em “escola doméstica”, estudei em um lugar onde ensinam a pensar e a estudar PARA O MUNDO!...

Apesar disso, ADORO escolher os produtos de limpeza para cuidar da casa. DETESTO que a limpeza se torne regra (ah, hoje é sexta... dia de faxina!; ah, PRECIIIIIIIIISO lavar isso!). Para mim, faxina é passatempo. Gosto de escolher os aromas, para que fique tudo cheiroso, antes de ficar tudo limpo. Gosto de lençol limpo e cheiroso. Gosto de um detergente, odeio todos os outros. Não suporto aqueles sabonetinhos para vaso sanitário... Fedem a banheiro de rodoviária. No final de uma faxina, gosto de tudo cheiroso. Do lençol florido até o pano de prato novo. Ah, e se vocês, mulheres casadas, sofrem desse mal... compartilho com vocês: AMOR, PANO DE PRATO NÃO É TAPETE DE COZINHA! Grrrr...

Não sou do tipo de seguir a “regra da comida”. Cozinho quando quero... Faço por prazer, e não por obrigação. Faço quando o “comidinha caseira” se torna especial, e não rotineiro. DETESTO rotina! Em tudo! Prefiro muito mais fazer um prato especial num dia especial do que me matar diariamente na cozinha preparando feijão, arroz, purê, macarrão...!

(Meu bem, se quiser a Amélia, já disse... heheheheh!)

Por sorte, meu maridão é prendado, cozinha, arruma, varre, cuida do bebê, faz tudo o que eu poderia fazer sozinha: somos dois em casa brincando de casinha.

Deixa o machismo para o lado de fora da porta! Do outro lado da calçada.

Tenho meus lapsos de mulherzinha. Não vejo a hora de mudar as cores da casa, ai!; ...De mudar a cor do sofá, de colocar o tapete na sala, de ajeitar a mesa de centro, de trocar a luminária da sala, de trocar os arranjos de flores, de mudar as mesinhas de cabeceira no quarto... Grrrrr... Quem não gosta de um LAR bonito???

No mais, voltei às baboseiras, estava sem net.


Por sed non satiata * 4:41 PM

Comments:
[Quarta-feira, Março 24, 2010]


"Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova."

Alberto Caiero

Por sed non satiata * 5:28 PM

Comments:


Às vezes é preciso arrumar as gavetas da nossa vida, como no poema de Roseana Murray...

"separar coisa por coisa: de um lado o pólen do passado, as raízes do que foi importante, os retratos, os bilhetes, os horários... as lembranças, os projetos, os amigos que ficaram na estrada...

....do outro lado um espaço vazio, para o que vai acontecer..."

É isso...


"Viver os desejos, esgotá-los na vida, é o destino de toda a existência"

(Henry Miller)

Por sed non satiata * 5:02 PM

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[Terça-feira, Março 23, 2010]


Seus dedos na minha pele são arrepios. Todos os pêlos, curiosos, levantam-se para ouvir o suspiro. E, comemorando a vitória da pele sobre as palavras, acompanham seus dedos em ola, arrepiando-se, arrepiados. Seus dedos que, de tão leves, escorregam sobre minha pele, cortando-me em quatro pedaços.




por que me preocupar tanto com as cores que faltam, se tenho um azul tão infinito aqui??? por que não pensei nisso antes? deixe que todo o resto desbote, tenho minhas próprias cores...

amo

Por sed non satiata * 11:36 PM

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Os rios permanecem no mesmo lugar, embora suas águas jamais permaneçam as mesmas...
O percurso flui, anda, corre, voa. As águas se renovam. O rio fica. As águas não param, a correnteza é forte. Ainda assim, o rio será sempre o rio...

... mas com novas águas.



"...há impossibilidade de ser além do que se é - no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que eu, quase normalmente - tenho um corpo e tudo que eu fizer é continuação de meu começo...... a única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais..." Lispector



Por sed non satiata * 1:24 PM

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[Segunda-feira, Março 22, 2010]


Nas veias corre água sanitária no lugar de sangue. Esta, eficiente e barata, desbotou pele, roupa, sentimentos e pensamentos. Desbotou o presente. Preservou as cores do passado, mas deixou transparente o futuro – é algo invisível à percepção...

...invisível para expectativas.

Maldita água sanitária.

Desbotara a roupa mais querida do meu armário. Colorida, nostálgica, rotineira, para o dia e para a noite, sempre cheirosa e sempre em acalantos e carinhos. Quão especial essa roupa fora, um dia! Deu-me tantas alegrias, tantos frutos... Ouço suspiros e digo: lamento, esta roupa já não me serve mais... além do quê, está apertada para o futuro. Mas lamentavelmente não tenho coragem de me desapegar – a guardo sem coragem de admitir... A guardo fingindo ser nova, pronta para qualquer ocasião. Ainda a visto, mas ela não me deixa mais como antes. É até engraçado dizer que o carinho por ela não mudou... Mas ela desbotara. Se eu encontrasse um corante da cor dela... Ficaria como novinha. Mas ainda não achei. Ela desbotara. Sinto-me nua...

O tempo muda, e com ele todas as coisas vividas. Ain’t no sunshine when she’s gone...




Por sed non satiata * 9:46 PM

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[Domingo, Março 21, 2010]


Grosse Probleme fangen klein an.
Kleine, nicht gelöste Probleme, werden gross.
Kleine Sachen machen einen grossen Unterschied.


Por sed non satiata * 6:08 PM

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Pelo fato de eu ser introspectiva, muita gente não me conhece. Possuo o defeito de me expressar “melhor” escrevendo do que conversando (apesar disso, por incrível que pareça para quem lê isto aqui, eu nunca me abro, jurei nunca contar isso, mas...). Em virtude disso, pessoas por mais que sejam próximas a mim na realidade não conhecem minha melhor parte. Nisso eu incluo irmãs, pais, amigos, e até com quem eu vivo. Este é meu defeito. O silêncio nasceu comigo, não sei se por medo de me expor, ou por medo de não saber me expressar oralmente. Não sabem o que penso, porque na hora certa eu não digo a coisa errada – eu simplesmente não falo. Creio que essa seja uma das melhores razões para se ter um espaço como este aqui.

Quando apago minhas velas no bolo ou quando faço pedidos para um ano novo, antes de tudo eu sempre peço: saber falar sem pudores, não hesitar em falar o que penso, mostrar a todos quem eu posso ser além da máscara que carrego na face. O fato é que até hoje eu não consegui nem a metade. A máscara é pesada demais. Ainda sou apenas uma pessoa com bom humor e maluquices – para as irmãs, sou a mimada, despreparada e sensível demais – para os pais, sou a (quem sabe) chata, antipática e estranha , para as outras pessoas. Isso não deveria doer...mas dói. Mas é só culpa minha...

Ontem saboreei a rara oportunidade de estar sozinha em casa, sem filho e marido. Tomei umas taças, assisti a um bom filme, o qual já havia visto no Cinesophia - Match Point. Não sei se isso acontece aos outros, mas quando estou nos meus momentos predominantemente particulares e à flor da pele, seja uma música, um filme ou numa fila de supermercado, aquilo por não sei qual razão do destino me toca. O filme acabou sendo aquilo que eu precisava para a noite. Foi como um mito: algo que relatado sobre o passado abrange o presente e o futuro, de maneira absurdamente atemporal. Não fez relação com amor ou amizade, mas é disso afinal que estou falando...: teve a ver comigo. E é esse “comigo” do qual eu abri mão a vida inteira. Nunca me mostrei, sempre estive debaixo do pano, atrás da máscara, ofuscada por outras pessoas. A vida é uma sucessão de fatos aleatórios que nos conduzem a um ou outro resultado, quase sem querer. Não que não tenhamos controle algum – o controle existe, mas as coisas dificilmente ocorrem como o planejado.


“Não é curioso que tanta coisa dependa de a bola cair do lado de cá ou de lá da rede?” (Chris Wilton, em Match Point)

“O génio que disse ‘Prefiro ter sorte a ser bom’ tinha uma grande intuição.” (Chris Wilton, em Match Point)

A minha sorte seria saber me abrir para quem gosto, e não sorrir, rir, fazer rir e voltar para casa. Sou uma esfinge, trancada em não sei quantas chaves, um livro lacrado - talvez o “livro” ao qual Goethe se refira em Fausto: “oh, sim, até as estrelas mais longínquas são, meu amigo, os tempos do passado. Livro lacrado, de mistério infindo...” por ironia, me dei conta só agora que tatuei isso em mim sem saber que o livro lacrado, de mistério infindo, sou eu...


Por sed non satiata * 3:32 PM

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[Sábado, Março 20, 2010]


Tua pele é domínio; teu calor, fascínio; teu suor, mero reflexo de tua posse... São olhos que se perdem no verdadeiro significado do olhar. E eu tento ver, no invisível imaginário, aquilo que minha alma busca, o que me consome depois de consumido. Meu mundo imaginário dilacera meus sentidos...Estou, talvez, perdida neste tempo, meramente colada à embalagem deste lugar que me soa um perfeito estereótipo. Anseio tanto por definir-me que as palavras, tímidas, se escondem, e quando as encontro, sinto que não me bastam. Por mais que eu tente compreender as pessoas, por mais que eu tente visualizar seus profundos, por mais que eu persevere, eu sempre vejo espelhos nas pessoas e ao invadir seus sonhos e seus sentimentos acabo me vendo ali, em cada uma... e acabo sem compreensão nenhuma, não compreendo a mim mesma. De todas que sou, não há nenhuma que não te queira, não há nenhuma que não te ame e por ser assim brigam em mim - só ficam as cicatrizes, estas que você não as fez, mas sim o passado. Você as cura...por isso sou plena.


Na mesa daquele bar, naquela noite como todas as outras, minha cerveja quente, meu café frio e meu cigarro tragado pelo vento. E eu que sempre me firmei no que parecia não ser óbvio... Continuo a acreditar no paradoxo que vive as paralelas do mundo... eu sou uma estrada interminável.

(... E como se única a reparar na beleza da vida de tudo, ela andava.)

É preciso saber o que se compreende, ou pelo menos ter consciência daquilo que se compreende. Como se tudo dependesse de uma compreensão primária, que não se satisfaz se for superficialmente analisada. É preciso traduzir-se a fundo, porque eu sou por dentro, mas também por fora.

Sempre é melhor amar demais do que de menos. Ame!... O resto é besteira. O resto não é. O amor é um enigma. E esse enigma faz de mim esfinge: "Decifro-te ou devora-me!"

Existir é algo muito complexo, há sempre dúvidas quanto ao que é real, e quanto ao que não é. Por isso, sempre digo que não existo - eu sou! “Ser” é pura metafísica. Existir, pura ilusão.

E o claro me cega a alma!


"É preciso saber sentir, mas também como deixar de sentir, porque se a experiência é sublime pode tornar-se igualmente perigosa. Aprenda a encantar e a desencantar. Observe, estou lhe ensinando qualquer coisa de precioso: a mágica oposta ao 'abre-te, Sésamo'. Para que um sentimento perca o perfume e deixe de intoxicar-nos, nada há de melhor que expô-lo ao sol".
(Clarice Lispector, "A Bela e a Fera, p.46-47).


Por sed non satiata * 10:53 PM

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[Quarta-feira, Março 17, 2010]


Deixe que eu te ame em meus silêncios, na calmaria do seu coração que me acolhe, e de onde se desprendem meus sonhos em vôos etéreos de plena liberdade. Deixe que eu te ame em minha solidão, ainda que meus labirintos te confundam e que teus fios generosos de compreensão emaranhem-se no tapete dos meus enigmas. Deixe que eu te ame sem qualquer explicação, na ternura das tuas mãos que me sorriem, escrevendo desejos em versos despidos na minha alva tez que te cobre e descobre... Deixe que eu te ame em meus segredos, para que desvendes o que também desconheço - a alma dos meus abismos, onde anoiteço - E meus olhos adormecem embalados pelo mistério. Deixe que eu te ame em tuas demoras, longas horas em que meu corpo se veste de céu à tua espera, enquanto minhas mãos acendem estrelas para alumiar-te, ainda que ausente estejas...

Por sed non satiata * 3:12 PM

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Debaixo dos lençóis, suas mãos suavemente percorrem o caminho já conhecido. Eu, de forma intencional, finjo nada sentir, como se estivesse a dormir. Com carinho, seus lábios seguem lentamente os caminhos já demarcados tantas vezes. Ainda que eu tente resistir, com seus toques entrego-me inteiramente a você. Como sempre. E assim amamos loucamente, externando todo o prazer, permitindo que a imaginação desenvolva-se em sua criação... Para sentirmos todo o sabor no ápice do amor. Após tantas emoções, com os corpos relaxados e ao som de varias canções - dormimos abraçados.

como sempre.

Por sed non satiata * 3:08 PM

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O mito de Adão e Eva, ainda o grande mito de nossa época.



"Embora o desejo possa ser considerado o grande conceito da modernidade, sua história se identifica com a história da humanidade e da filosofia. Desejo, com suas raizes mergulhadas no profundo inacessível da alma humana, é uma noção fugidia, que pode referir-se a uma experiência extraordinária, mas parece sempre ultrapassar as categorias e capacidades analíticas da razão filosófica. Desejo é com certeza um conceito vivo. Talvez seja o próprio conceito da vida... Viver é desejar."

(Camille Dumoulié)



Por sed non satiata * 2:51 PM

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Apresentado em 12 de Março de 2010 (sexta feira), no Auditório de Filosofia (CCHLA) às 15:00 hs.



com sessão dupla:

* Pina Bausch: Lissabon
Wuppertal Lisboa
de Fernando Lopes

+

* Se Podes Olhar Vê Se Podes Ver Repara
de Rui Simões

muito bom! um viva aos fazedores!


E nesta sexta-feita teremos mais uma tarde boa de CINESOPHIA, com o filme OS SUBSTITUTOS. Fica a dica...

Hoje é dia de arrumar a casa, fazer a unha, shopping e folga da aula... Amanhã é dia de A-HA!




Por sed non satiata * 2:45 PM

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Pina Bausch: "O que me interessa não é como as pessoas se movem, mas sim o que as move" (Lindo...)




Philippine Bausch nasceu na Alemanha no dia 27 de julho em 1940. Praticou ballet ainda na infância, e quando completou quinze anos foi estudar na escola de dança Folkwangen, na cidade de Essen. Em 1968, Pina estreou como coreógrafa ao dirigir a peça ‘’Fragment’’. Pouco depois, ela assume a função de diretora artística e de coreógrafa na mesma companhia na qual dirigiu a peça.

Anos depois, Pina Bausch assume a companhia de dança do teatro Wuppertal, tornando-se alvo de duras críticas, em virtude do caráter inovador e chocante que está contido em suas coreografias. Pina Bausch rompe com os padrões estéticos que até então haviam dominado a dança clássica e que constituíam a dança de forma basilar, adicionando, propagando-se e perpetuando-se como um sistema de regras estéticas, que permitiam avaliar uma coreografia como boa ou ruim. Acima de tudo, a dança clássica, ou melhor, a maneira clássica de compor a dança, não e só uma fórmula a ser seguida à risca, mas todo um sistema de regras que limita, determina e submete a qualidade de uma obra, que a julga e a categoriza, que dita o que é apreciável ou depreciável, o que é digno de admiração ou o que é digno de recusa, ao que é propriamente belo e o que não é.


A expressão coreográfica da dança de Pina Bausch rompe com a dança clássica, na medida em que já não é necessário obedecer a um série de critérios que categorizam, descriminam e avaliam uma determinada expressão artística como verossímil manifestação artística, verdadeira e incontestável, capazes de caracterizar uma obra como tal.


As coreografias que Pina Bausch desenvolveu, ou melhor, a sua arte propriamente dita, forma um ponto de ruptura, um ponto de corte, entre a arte clássica e a arte pessoal, destituída de uma pretensão clássica e de um compromisso com o ‘’perfeito’’. A obra de Pina Bausch representa não só uma ruptura com a arte clássica, mas sim uma quebra de valores e uma nova maneira de se fazer arte, torná-la mais humana, desvinculá-la de um plano impessoal e pré-concebido e deslocá-la para um âmbito ao alcance das pessoas, fazendo com que a própria vida, o cotidiano, os acontecimentos, os sentimentos, enfim, o que concerne ao homem sensações e emoções inexprimíveis se manifeste e se misture em forma de dança - ou seria o contrário? Ou a vida ou a própria emoção juntamente com a dança se tornaram tão próximas que na obra de Pina Bausch já não se pode discernir uma da outra? Será a própria vida como uma manifestação de si mesma, transubstanciada nos palcos sobre a forma de uma dança, ou teria a dança se tornado tão profunda a ponto de se configurar e desvelar o aspecto mais concernente a própria vida? Pensem nisso...




Por sed non satiata * 2:41 PM

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[Segunda-feira, Março 15, 2010]





Uma tarde de estudos ouvindo Feist & Kings of Convenience..., cheirinho bom na casa, almofadas, cabelo molhado... faltariam só a chuva, Camel, um capuccino que eu sabia fazer masnãoseimais... e a antiga janela da casa onde eu morava...


http://www.youtube.com/watch?v=UUlA7BGCMrI

http://www.youtube.com/watch?v=fV4RfXURgQI

(os Cds de Kings são maravilhosos, fica a dica para quem ainda não ouviu)



Por sed non satiata * 3:47 PM

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[Quarta-feira, Março 10, 2010]


Não que eu ande hiperativa, mas não acharia ruim preparar uma carne com legumes e arrumar a última gaveta do armário da cozinha. Faria até a sobremesa de abacaxi! Ando com a cabeça a mil... com arquivos e textos pela primeira vez organizados em pastas (hoje em dia eles correm o risco de virarem papel de desenho do bebê), e com uma insônia que só corrobora para o acúmulo de tempo para estudar. São livros ora de filosofia, ora de poesia, ora de alemão..., e eu já nem me reconheço mais no espelho. São goles de café que deixaram de ter sabor, apenas assustam o sono. São tempos antes usados com bobagens (geralmente, TV ou computador) agora obrigatoriamente recuperando as semanas sem aula e a cabeça parada; a bagunça da casa finalmente colocada em ordem, e como eu queria me multiplicar...! Só um louco escolheria gastar as ultimas horas da noite numa mesa, e não numa cama...! Sei que no final de semana me darei ao luxo de um Dolcetto d'alba, quem sabe, ou de tomar cerveja gelada numa mesa de bar, porque meu santo é de barro e ninguém é de ferro. A vida é um leque de possibilidades diferentes que cada pessoa nos traz.

Estava lendo meu blog anterior, putz, perdi o latim...


Por sed non satiata * 10:08 PM

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Me apaixonei por Rimbaud...me ajudou na insônia!

*

"Se bem me lembro, minha vida era outrora um festim - aberto a todos os corações, regado por todos os vinhos.
Um dia, sentei a Beleza no meu colo. - E a achei amarga - E injuriei-a.
Contra a justiça levantei-me em armas.
E fugi. Ó feiticeiras, ó miséria, ó asco - o meu tesouro foi confiado a vós!
Cheguei a dissipar de meu espírito o último traço de esperança humana. Num salto surdo de animal feroz, pulei sobre cada alegria para estrangulá-la.
Convoquei verdugos para, agonizando, abocanhar-lhes a coronha dos fuzis. Invoquei flagelos, para me sufocar nos areais, no sangue. Fiz da desgraça um deus. E me espojei na lama. E me estendi a secar na aura do crime. E andei pilheriando com a loucura.
A primavera trouxe a mim o riso horrível do idiota.
Mas, como estive ultimamente à beira de lançar meu derradeiro vômito! pensei em reaver a chave do festim antigo, para nele recuperar a fome.
A chave se chama caridade. - Essa inspiração é prova que sonhei!
"Sempre hás-de ser hiena, etc...", reclama o demônio que me coroou de papoulas tão sutis. "Conquista a morte com todos os teus apetites, com teu egoísmo e todos os pecados capitais.
"Ah! que os provei demais: - Porém, caro Satanás, eu vos conjuro, um cenho menos carregado! e à espera de minhas pequenas covardias em atraso, arranco para vós que apreciais no escritor a ausência de faculdades descritivas ou instrutivas - estas páginas odientas de meu caderno de maldito."

Arthur Rimbaud - prefácio de "Une Saison en Enfer"

Por sed non satiata * 9:57 PM

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"Nós, os solitários, nós, sonhadores isolados, deserdados pela vida, que gastamos nossos dias de introspecção perdidos num ar gélido e artificial, espalhando um sopro frio como que proveniente de regiões estranhas, sempre que estamos entre seres humanos vivos que veem nossas frontes marcadas com o sinal da sabedoria e do medo; nós, pobres fantasmas da vida, que somos recebidos com um olhar embaçado, e logo que possível deixados a sós, para que nosso olho vazio e perquiridor não sombreie a alegria... Todos nós acalentamos uma oculta e insaciável nostalgia das coisas inocentes, simples e reais da vida; um pouquinho de felicidade amável, devotada, humana e familiar. Aquela 'vida' da qual estamos apartados -- não a encaramos como uma beleza selvagem e um esplendor cruel, não é pelo extraordinário que possa conter que ansiamos por ela, nós, que somos os extraordinários. O reino do nosso nostálgico amor é o reino das coisas normais, agradáveis e respeitáveis, é a vida com tudo o que tem de tentador e banal; é isso que queremos..."


MANN, Thomas. Os famintos e outras historias.

Por sed non satiata * 9:56 PM

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"...o que me dilacera o coração é esta força destruidora oculta em toda a natureza, esta força que nada cria senão para destruir-se e destruir o que a cerca ao mesmo tempo. Assim prossigo eu, vacilante e o coração opresso, entre o céu e a terra com as suas forças sempre ativas, e nada mais vejo senão um monstro que devora eternamente todas as coisas, fazendo-as depois reaparecer, para de novo devorá-las" (trecho de Goethe - Werther).

*


"Que a vida do ser humano não passe de um sonho, eis uma impressão que muitas pessoas já tiveram, e eu também vivo permanentemente com essa sensação. Quando observo as limitações que cerceiam as forças ativas e criadoras do homem, quando vejo como toda a atividade se resume em satisfazer as nossas necessidades, que, por sua vez, não visam outra coisa senão prolongar nossa pobre existência; quando percebo que todo apaziguamento em relação a determinados pontos de nossas buscas constitui apenas uma resignação ilusória, uma vez que adornamos com figuras coloridas e esperanças luminosas as paredes que nos aprisionam -- tudo isso, Wilhelm, me faz emudecer. Volto-me para mim mesmo, e encontro todo um mundo dentro de mim! Novamente, vejo-o mais a partir de pressentimentos e de vagos desejos, muito mais do que nitidamente contornado e povoado de forças vivas. Tudo então passa a flutuar diante dos meus sentidos, e prossigo sorrindo e sonhando na minha jornada pelo mundo.Todos os pedagogos eruditos são unânimes em afirmar que as crianças não sabem por que desejam determinada coisa; mas também os adultos, como as crianças, andam ao acaso pela terra, e, tanto quanto elas, ignoram de onde vêm ou para onde vão; como elas, agem sem propósito determinado e, igualmente, são governados por biscoitos, bolos e varas de marmelo: eis uma verdade em que ninguém quer acreditar, embora ela seja óbvia, no meu entender.Concordo -- pois já sei o que me vais responder -- que os mais felizes são aqueles que, como as crianças, vivem a esmo dia após dia, carregando suas bonecas, vestindo e despindo-as, rondando respeitosos a gaveta onde a mãe guardou o pão doce, e gritando, com a boca cheia, quando finalmente conseguem o que cobiçavam: "Quero mais!" Estes são felizes. Também são ditosos aqueles que dão títulos pomposos às suas míseras ocupações ou até mesmo às suas paixões, alegando que se trata de empreendimentos gigantescos, destinados à salvação e ao bem-estar da humanidade. Bem-aventurado aquele que consegue ser assim! Mas aquele que humildemente percebe a que leva tudo isso, vendo como o cidadão, quando satisfeito, transforma o seu pequeno jardim num paraíso, como, por outro lado, até mesmo o deserdado da fortuna carrega corajosamente o fardo e segue o seu caminho, e como todos, afinal, desejam igualmente enxergar a luz do sol por um minuto mais -- quem observa a tudo isso recolhe-se no silêncio, molda o seu mundo à semelhança de seu próprio íntimo, e também é feliz porque é um ser humano. E então, por mais limitado que seja, guarda sempre no coração a doce sensação da liberdade, sabendo que poderá livrar-se do cárcere quando quiser. " (Trecho de Goethe - Werther)



...porque Goethe pode ser mencionado quando menos esperamos - chaveando um canal na televisão.



Por sed non satiata * 9:55 PM

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[Segunda-feira, Março 08, 2010]


Feliz dia nosso! Para nossa homenagem, nada melhor do que uma poetisa como Cora Coralina...além de um pouco daquele que decifra a alma feminina...: Neruda.



[Saber Viver]


Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar.


[Cora Coralina]



---------------------------



"Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um so mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio."

[Pablo Neruda]

Por sed non satiata * 3:16 PM

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[Domingo, Março 07, 2010]


O que encanta o meu coração
Não faz sentido
Caminha para o descaminho
Um ninho de significados
Passos do nada proliferante

O que vale o poema d’alma
E minhas lagrimas derretidas
Meu embalo mortal, desafiador.
Quero apenas o caminho certo

Ouvir, definir, restabelecer.
O que pensam de mim
No que posso me tornar
Não há o Homem


E as regras
Queimem todas no inferno
Pois minha glória
Esta não se renderá jamais

Soem os sinos
Minha liberdade indefinida
Sou dela e ela é minha
Um amor em estado de presença

[ Minerva de Orion ]


...quando algo que você não espera ler toca a sua alma, mesmo que isso seja piegas, o que fazer?

Semana boa... no more gripe... muitas reticências, show de Roberta Sá amanhã depois da aula, uns quilos a menos e uma semana de bagunça acumulada para arrumar, muito texto para ler, perdi muita aula... é uma mistureba de nada!



Por sed non satiata * 2:34 PM

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[Sábado, Março 06, 2010]


Para uma semana de gripe, três leituras. Para um sábado de melhoria', rock e cerveja...! E isso não precisa ser concluído por nenhum Bukowski...

Por sed non satiata * 6:02 PM

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"Sempre tolice e error, culpa e sovinaria,
trabalham nosso corpo e ocupam nosso ser,
E aos remorsos gentis, nós damos de comer
como o mendigo nutre a sua piolharia .."

As Flores Do Mal - Baudelaire

Por sed non satiata * 5:56 PM

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Assim como as atividades de ler e aprender, quando em excesso, são prejudiciais ao pensamento próprio, as de escrever e ensinar em demasia também desacostumam os homens da clareza e profundidade do saber e da compreensão, uma vez que não lhes sobra tempo para obtê-los. Com isso, quando expõe alguma idéia, a pessoa precisa preencher com palavras e frases as lacunas de clareza em seu conhecimento. É isso, e não a aridez do assunto, que torna a maioria dos livros tão incrivelmente entediante. Pois, como podemos supor, um bom cozinheiro pode dar gosto até a uma velha sola de sapato; da mesma maneira, um bom escritor pode tornar interessante mesmo o assunto mais árido.


Arthur Schopenhauer, in “ A arte de escrever”

Por sed non satiata * 5:55 PM

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"Abraão creu na palavra divina de que todas as nações seriam abençoadas em sua posteridade, e continuou a crer nela ainda quando, após ser pai na velhice, lhe foi exigido o sacrifício de seu único filho, Isaac; ora, tal sacrifício, que tirava todo sentido racional à promessa, significou, para Abraão, a fé no absurdo, a certeza de que Deus o estava provando e a disposição de sacrificar, se necessário, Isaac (com a certeza de que este lhe seria restituído); realiza-se, assim, o movimento que parte da resignação infinita (pela qual renuncia a Isaac), em que se adquire a consciência do seu próprio valor eterno, e chega-se, pelo absurdo, à fé, em que se readquire o finito (a retomada de Isaac); tal movimento implica a angústia e o paradoxo pois, se é preciso coragem puramente humana para renunciar a toda a temporalidade a fim de obter a eternidade, é preciso a coragem da fé para, em razão do absurdo, encontrar a alegria na temporalidade finita e transformar, assim, um crime moral em algo santo e agradável. "

Sören Kierkegaard


Por sed non satiata * 5:53 PM

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[Sexta-feira, Março 05, 2010]




me apaixonei pelo CD...


http://www.youtube.com/watch?v=eaTzRvp8Pdw

Por sed non satiata * 1:04 AM

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Três filmes aos quais sinto falta de assistir:


Moulin Rouge – sempre me esqueço que se trata de um musical. Encantei-me por tal ‘obra de arte’ desde a primeira vez em que a assisti. Digo “primeira vez” porque depois dela vieram a qüinquagésima, a octogésima, a centésima primeira... A temática cingida remete a um artista do qual gosto muito: Lautrec. Corrompe a minha alma toda a cortina de boemia, desejo, racionalidade e paixão, presente do começo ao fim. Sem falar que a trilha é ma-ra-vi-lho-sa... As versões feitas para fundo do enredo são de excelente bom gosto! A versão sofrida e visceral de Nature Boy (amo!), Roxane em nada mais, nada menos do que TANGO, um tesão!, e por aí vai... até a versão bem humorada de Like a Virgin. Ui! E isso não é tudo... Besta como eu sou, me apaixonei pelo jogo de cores “nada” proposital e meticuloso percebido do começo ao fim. É o clássico contraste de opostos – o vermelho e o azul se chocam, tal como razão e emoção, de acordo com a psique das personagens. É um filme predominantemente baseado no duelo entre pensamento e sentimento. Prestem atenção... Nas horas de paixão, vermelho. Nas horas de razão, pudor, receio e dúvida, azul. É fantástico! Deu pano para manga até para um trabalho na faculdade, quando eu fazia Letras. Foi divino.

http://www.youtube.com/watch?v=pHO5KWIMZUo

http://www.youtube.com/watch?v=KexJb5Vu4i0&feature=PlayList&p=AB189BAAB7DFF3F5&playnext=1&playnext_from=PL&index=10







C.R.A.Z.Y: Loucos de Amor – não é daquele tipo de filme que prende você na metade da estória. Fui hipnotizada desde a primeira cena, ainda com as letrinhas dos atores...Esta é uma absurda e apaixonante história de dois casos de amor. Um amor de um pai pelos seus cinco filhos e o amor de um filho pelo pai. Trata-se de uma mística fábula sobre os dias modernos, expondo a beleza, a poesia e a loucura do espírito humano em todas as suas contradições. Mais uma vez, fui pega pelo gozo da trilha. É inenarrável... Entorpece. Uma das melhores! Chorei copiosamente, desesperadamente, mas não foi de tristeza, e sim pela infinita beleza e sentimento profundos provocados pelo filme. A INESQUECÍVEL cena em que o protagonista dança e interpreta a música de David Bowie (Space Oddity) não é NADA além do que um hino. Não se trata de uma performance subjetiva, é a representação de t-o-d-a uma geração... Não apenas de um indivíduo. É um clássico.

http://www.youtube.com/watch?v=D67kmFzSh_o

http://www.youtube.com/watch?v=7i4skKRMvJQ










Lua de Fel – meus caros, esse filme é dirigido por nada mais, nada menos do que Roman Polanski! Só! Sou fã dele. O drama é explosivo do começo ao fim, e explora as mais obscuras profundezas da perversão sexual. Não aquela pré-fabricada e padronizada das revistas de sexo, mas aquela deliciosamente presente em qualquer mente, nos pensamentos de todos nós. Ah, Polanski... Eis a manipulação perversa da condição humana como só ele sabe fazer ! É a nítida alusão à linha tênue entre amor e ódio; é o giro da roleta, o supremo tornando-se submisso, o poder alternando de acordo com o tempo. Nada mais sedutor do que a política sexual do feminino, nada mais hu-ma-no do que a sensualidade e a possessão. Ah, como não poderia deixar de ser...Tem uma trilha perfeita!

http://www.youtube.com/watch?v=iBFCxDWGo6g





São três filmes do meu top top prediletos. Para mim, são clássicos.



Por sed non satiata * 1:00 AM

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[Quarta-feira, Março 03, 2010]


Sinto como se algum ciclo estivesse se fechando, ciclo este que não consigo enxergar ou distinguir; sinto como se algo – ou um acúmulo de coisas – estivesse para chegar... Já senti isso antes, como agora. Não se trata de uma mudança no conjunto, é algo tão egocêntrico quanto a vontade de ser feliz. É algo em mim..., dentro da minha cabeça. Eu sinto quando algo chega para mim. Sei quando chega a minha vez.

Pela primeira vez em tanto tempo, o por do sol não usou sua aura de tristeza e melancolia. Pelo contrário, senti a melhor das sensações enquanto o sol ia embora... senti. Para isso, não precisei nem do amarelo com azul - do dia -, nem do preto da noite. O cinza dessa vez não me incomodou.

Acho que estou em fase de Déjà vu...
Tenho raiva do quão paradoxal é sentir-se bem com os ares novos e ao mesmo tempo sentir medo por ser algo desconhecido...é coisa de libriana ou todos se sentem assim?


ai...

Por sed non satiata * 5:44 PM

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[Domingo, Fevereiro 21, 2010]


Parte I


Vejo-me de relance no reflexo da janela do quarto. O que observo me agrada... Tudo ali, rapidamente, estava coerente – tudo fazia sentido. E desse modo caio numa das mais tristes conclusões que já me ocorreram. Quase ninguém gosta de ver-se por completo. Não me refiro ao físico. Não falo da beleza, do corpo, do cabelo penteado. Falo do que de fato somos - interiormente; falo dos atos e dos pensamentos. Temos medo da nossa verdade absoluta (essa, quase uma lenda), temos receio de conhecermo-nos inteiramente. É quase fatal. Isso me faz lembrar o mito de Narciso...

É tão difícil termos coragem de enxergar aquilo que realmente somos, sem máscaras, ali, diante do espelho – nossa consciência. O reflexo de relance sempre foi o mais conveniente. Nossa memória seletiva, junto com nossas máscaras, delineiam o protótipo do que achamos que somos... O que eu posso dizer daquele que consegue enxergar além do espelho...? Ou será que todos nós podemos, atravessando a noção do que há dentro da gente? Só sei que ali, no reflexo, eu vi felicidade. E ai de quem negar isso a si próprio...







Parte II

O mesmo reflexo na janela do quarto retrata aquilo que nos é confortável. É a sombra escura, o misterioso, aquilo ainda não despido, aquilo visto de longe. É o conveniente. Tudo o que se faz desnudo perde a melhor parte do mistério, perde o desejo, a curiosidade. E por isso levamos tantos anos para sabermos quem somos, e quem são os outros...

Muitos gostam de como a sombra e o breu protegem a si e aos outros. Já outros preferem, logo de cara, toda a verdade em torno do que almejam... Por mais que a "silhueta vista contra a luz" seja como a "vitamina C" de todos (esta, ajuda a prevenir a gripe; aquela, protege a descoberta de si e de todos), eu gosto da transparência - ela me cai bem... Não me refiro a uma vestimenta, mas sim àquilo que procuro carregar no que vejo, no que digo e no que sinto...

E olha, felizmente, tem dado certo. Alguns chamam isso de paz, eu assino embaixo. E ainda coloco um “ps:” felicidade.



Por sed non satiata * 11:14 PM

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[Quinta-feira, Fevereiro 11, 2010]


Queria ter aquele tempo-bobo como antigamente (e aquela inspiração pseudo-algo-nefelibata), por mais supérflua que seja essa coisa de escrever neste blog...quase nada se salva, mesmo! Por enquanto, um "rabisco" aqui e acolá assustam as aranhas que pretenderem criar suas teias por aqui, nas “elucubrações meditabundas”.


Dia desses, andando pelo shopping, não resisti. Bum! Fui abduzida por uma loja. Mal entrei, e já me deu aquele revestrés consumista. Acho que toda mulher sente isso, quando há um cartão de crédito na bolsa... E foi o que sucedeu comigo. Por mais que eu pensasse: não, não, não..., já estava lá, folheando os lançamentos e cheirando as capas dos livros. Aquela livraria está cada vez mais atraente...! Com aquele cafezinho cheiroso, com as prateleiras intencionalmente bem postas, e... ai, todo aquele colorido das capas! Atendentes por todos os lados...! A sorte – e eu digo ‘sorte’ do ponto de vista do meu cartão de crédito – é que o meu gordinho estava comigo. Não deu tempo de pensar em qual livro comprar, pois eu só conseguia ouvir: “mamãe, mamãe, mamãe, mamãe, mamãe, mamãe(...)”, e já pesava no colo, e já queria descer para ir aos brinquedos... então acabei sendo salva pelo gongo.


Ao chegar em casa, pela vontade mal nutrida da compra, fiz uma brincadeirinha que muito me agrada, com meu filho. “bebê, pegue na estante, por favor, um livro para mamãe?” e assim fico à mercê da intuição dele – sempre boa. Tanto quanto comprar um livro novinho em folha, gosto de reler coisas já lidas (ficou repetitivo? Que se dane! hehe). Nisso, ele mais uma vez acertou em cheio. Eis o livro que li em 2004, mas que ao ser relido, pareceu-me como a maior das descobertas do meu mundo... ai, que piegas!





(Abre aspas):


Seria o conto da Serpente Verde um puro jogo da fantasia? Uma parábola alquímica sobre o processo de iniciação hermética? Ou simples alegoria política e histórica de que Goethe serviu-se para registrar sua posição diante da Revolução Francesa e os seus efeitos? A multiplicidade de níveis de leitura de "A Serpente Verde" e o interesse despertado ao longo do tempo nos mais diversos estudiosos atesta senão a sua genialidade, ao menos a sua característica sui-generis. Oswald Wirth, Ronald Gray, Rudolf Sterne, Jung e Yvette Centeno entre outros, debruçaram-se no estudo deste conto desenvolvendo estimulantes interpretações. Obra intemporal, podemos sem muito esforço encontrar nela uma relação direta com o momento atual, pois o conto aborda simbolicamente a viragem de uma época para outra. Aliás, o tema "nova era" já estava na pauta de pensadores como Goethe e Schiller, preocupados com a transformação social e a real evolução do espírito humano. Para Goethe, especificamente, isto seria uma tarefa para séculos, passando necessariamente por uma lenta e gradual transmutação no plano individual. Alguns astrólogos vêem na Revolução Francesa o primeiro sinal da decantada era de Aquário, marco inicial da derrocada do autoritarismo para dar lugar aos novos tempos de igualdade, liberdade e fraternidade. Sem dúvida, tratou-se de um passo importante na esfera social, preparação necessária para um novo tempo. Agora, a próxima revolução deverá se dar no plano individual, com a morte iniciática e o conseqüente renascimento do homem em uma nova condição, capaz de vivenciar não só uma ética superior, mas também compreender o verdadeiro sentido do Amor e da Renúncia. A Serpente representa esta transfiguração, a ponte sem a qual jamais ultrapassaríamos o estágio em que estamos, alcançando aquele em que o "Eu" está pronto para sacrificar-se pelo "Nós".Este conto é, pois, um fino manjar para os apreciadores da boa literatura, engajada na temática alquímica e passando longe das fórmulas fáceis e da moral duvidosa de pretensos mestres com seus falsos magos e alquimistas.Através de um primoroso ensaio de interpretação, Oswald Wirth concluiu que este conto nos revela a essência e as profundezas mais remotas do pensamento de Goethe. E, como ele, o leitor irá concordar que a Serpente Verde "é um animal que se decompõe em pedras preciosas. Esforcemo-nos para recolher o maior número delas"...


(Fim das aspas)




Goethe me fascina, sempre! -suspiros


Por sed non satiata * 10:44 PM

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[Quinta-feira, Fevereiro 04, 2010]


"É estranho que em nosso tempo a filosofia não seja, até para gente inteligente, mais do que um nome vão e fantástico, sem utilidade nem valor, na teoria como na prática. Creio que isso se deve aos raciocínios capciosos e embrulhados com que lhe atopetaram o caminho. Faz-se muito mal em a pintar como inacessível aos jovens, e em lhes emprestar um fisionomia severa, carrancuda e temível. Quem lhe pôs tal máscara falsa, lívida, hedionda? Pois não há nada mais alegre, mais vivo e diria quase mais divertido. Tem ar de festa e folguedo. Não habita onde haja caras tristes e enrugadas."


Montaigne

hehehe...

insônia..., férias infinitas, tédio, cansaço...

Por sed non satiata * 2:00 AM

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[Terça-feira, Fevereiro 02, 2010]


Onde estava tanta estrela que eu não via
Onde estavam os meus olhos que não te encontrava
Onde foi que pisei e não senti
O ruído de teus passos em meu caminho
Onde foi que vivi
Se nem me lembro se existi antes de você
Ah, foi você quem trouxe essa tarde fria
E essa estrela pousada em meu peito
Ah, foi você quem trouxe todo esse vazio
E toda essa saudade
Toda essa vontade de morrer de amor



http://www.youtube.com/watch?v=SFnfjQJzlWE


Putz...

Quase 4 anos...

são 21 razões para tal, todo mês.

Por sed non satiata * 9:10 PM

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[Sábado, Janeiro 16, 2010]


A cidade muda



Mudez, mudança. Afasia. Afonia. Mudança. A cidade, muda.
Os livros não mudam. Diferente de exposições, teatros e shows. Dos homens e da cidade. Podemos gravar a música, mas o som reproduzido não é a música do artista, da mesma forma que a reprodução de um quadro não é o quadro. A reprodução de um texto é o texto. Quadros, peças e esculturas envelhecem, craquejam, precisam ser restaurados. Os olhos e ouvidos, assim como a sensibilidade dos homens, mudam. A cidade.


Saio de casa, fecho a porta e caio na cidade. Ando na cidade esquecendo-me que daqui a 40 anos, 23, 35, um ano e oito meses, ou daqui a uma hora e 47 minutos posso morrer. Andamos com o medo de ser machucados, mas não com a lembrança de nossa morte futura. Só podemos viver e andar na cidade porque somos imortais. Ou não? E vamos criando anticorpos a cada esquina atravessada, para qualquer enfermidade.


A cidade muda. A cidade que conhecemos muda a cada minuto. O mundo muda. Na verdade, nem muda, por aquilo já não ser mais aquilo, e pelo 'isso' não ter tempo de continuar a ser 'isso' e em seguida deixar de ser 'isso', no segundo seguinte. É tudo muito rápido. A cidade muda. Porque reconhecemos seus volumes, continuamos a chamá-la de nossa cidade. Surpreendo-me com um espaço vazio ou um novo prédio - não estava lá da última vez, lembro com certeza. Mas sei o que estava antes? Não. A ausência do que não me lembro, sua demolição e substituição, ou a reforma de uma fachada, a transformação do uso de uma casa em outro (agora é uma padaria, e o que era antes?), me fez pensar que estava perdendo a cidade que nunca guardei.


Ao deixar de perceber o que ali havia, no momento em que deixo de ver algo que ali jazia e agora já não há, tenho a mesma sensação da de quando percebo que uma peça que queria assistir saiu de cartaz. Uma representação não se repete. A percepção do transitório que compõe a cidade e sua vida trouxe à lembrança minha própria finitude, a co-habitação da indesejada das gentes nesse corpo que sou eu. Não vi, e portanto não continuará existindo em mim, aquela casa agora demolida, a peça não assistida. Não podemos estar em todos os lugares ao mesmo tempo, uma platitude física, mas podemos nos esforçar para estar onde estamos. Olhar e enxergar em volta. Uma casa e um prédio no meio do caminho.


Mudamos junto com a cidade, nós morreremos e ela continuará sua transformação. Tentar, com distração, captar pequenos sentidos possíveis em nosso trânsito diário, e passar adiante. Seja em uma conversa boba, indo ao cinema, em nossas impressões sobre o morro do careca, a tal fila do supermercado em véspera de feriado, a nova livraria inaugurada, o terremoto que adentrou o hall das fofocas top de linha, o cachê diabólico pago ao padre, hotel antigo demolido na rua movimentada, os pés de jambo colorindo as calçadas, a quantidade de linhas horizontais que dão movimento aos volumes verticais, o cheiro de praia que perfuma Janeiro e o começo da rotina maquinal que reverencia Fevereiro em diante. E feliz ano novo, até o próximo reveillon.


Enxergar, apontar, nomear e narrar é também criar uma existência e poder passá-la adiante. Os livros não mudam, mas só existem dentro da ação contínua da vida, só acontecem quando lidos por olhos que mudam e passam adiante.



Por sed non satiata * 2:48 AM

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[Sábado, Dezembro 26, 2009]


lindo, lindo, lindo.... cores, textura, poesia, paixão, nostalgia, uma infinitude de coisas.
para uma sexta-feira em casa ficar perfeita... longe da "rotina" de saídas.

com vinho verde! nhammmm... delícia!
e com kani!

affffffffffffff




Por sed non satiata * 1:19 AM

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[Terça-feira, Dezembro 22, 2009]


Foto engana. Há aquelas pessoas que só existem em virtude do cultivo photoshopeano e fotografístico. São as que lotam os álbuns com fotos “emo”, cheias de efeito e flash. No geral, pessoalmente, medem 1 metro a menos – verticalmente – e no mínimo dois números a mais – horizontalmente. A maioria abrange o grupo feminino. Dividem-se em dois estilos básicos: ou tentam provar desesperadamente uma sensualidade (da qual discordo e só interpreto como vulgaridade e ‘peniquice’, digo logo), com decotes, biquinhos e olhares fatais; ou tentam defender a nova (e infelizmente infinita) moda do ‘sou cool, uso roupas super coladas e coloridas, uso óculos com formatos estranhos - de coração, "comofas?" - e fiz tatuagens que mais parecem retiradas de figurinha de chiclete’. Costumam ser do tipo “conheço todo mundo”, pelo hábito que possuem de ‘fuçar’ a vida alheia. Fazem a linha ‘pop star’, inspiram um estrelismo que tiram não sei de onde. Viram a cara. Fazem a ‘egípcia’. Se acham. No final das contas, suas vidas são firmemente resumidas nos perfis do Orkut. Sendo este deletado, elas não são ninguém, socorro! São pessoas vazias, com celulite (e muita!) e cabelo ruim, como todos os pobres mortais.

Mudo de assunto.

Considero o Twitter (buscando no dicionário: chilrear; gorjear; pipilar; trinfar; trissar - ??) uma das ‘coisas recentes’ mais idiotas já inventadas. É a salvação de quem sempre quis ter um blog, mas não tinha a capacidade de desenvolver uma linha de raciocínio que excedesse 3 linhas. Trazem à tona aquilo que nós, usuários do blog, já fazemos: querido diário... Mas a maneira como o fazem é tosca. Não me convidem para o Twitter! Não deixem a mensagem “visita aê”! Eu acho tosco!

Talvez a juventude de hoje seja mais divertida do que aquela que nos antecedeu... Mas é cheia de acontecimentos bizarros. Isso não dá para negar!

Ou sou eu que sou chata? Heheh


Por sed non satiata * 8:33 PM

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[Quarta-feira, Dezembro 09, 2009]


Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada - de "O Guardador de Águas" - Manoel de Barros (Maravilhoso)


I

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.



II

Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas.



III

Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo...

A casa tem um dono em letras.

Agora ele está pensando -

no silêncio Iíquido
com que as águas escurecem as pedras...

Um tordo avisou que é março.



IV

Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!



V

Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.



VI

No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.



VII

O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.



VII

Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados
em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval,
pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural

- Que os poetas aprenderiam -
desde que voltassem às crianças que foram
às rãs que foram
às pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar
a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.



IX

Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.



FELIZ!!!

Por sed non satiata * 4:45 PM

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[Terça-feira, Dezembro 08, 2009]


"Há momentos em que parto não sei para onde. São as grandes caçadas dentro de mim mesmo, a busca da magia perdida, uma palavra cintilante, uma perdiz imaginária, um sopro, um ritmo, uma espécie de bafo. Como o teu. Às vezes sinto-o, outras não. Mas sei que estás aí, algures, enroscado na minha própria solidão."

Manuel Alegre, D. Quixote, 2002


...minha solidão se chama sono. o bafo, é meu tempo livre. entre a cadeira posta diante deste computador e minha cama, bagunçada ou não, prefiro a rede ali naquele outro quarto. é mais ventilado. cansaço infinito!

Por sed non satiata * 3:49 PM

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[Segunda-feira, Dezembro 07, 2009]


Por mais que queiramos ser diferentes, sempre aquela “maria-que-jura-que-não-vai-com-as-outras” acaba nadando no rumo da maré. Querendo ou não, termina por seguir a correnteza... Trata-se daquele sentimento exorbitante e hipócrita de fim de ano. Por mais que eu viva em função da idéia de que existe um ciclo que tem começo e fim, hesito em sentir tudo isso. Mas é inevitável, afinal...! Cada ano começa cheio de promessas e metas – cada ano termina com resoluções e reciclagens. É como me sinto, é como todos se sentem. É a ânsia de não deixar nada pendente, afinal vivemos inconscientemente com aquela sensação de que amanhã poderemos ter morrido, de que não se deve deixar nada para depois. E aí entramos no senso comum de novo! Ou não?

Na medida em que os primeiros dias de Dezembro passam, eu finalmente finalizo – de forma displicente, vale salientar – meu semestre. Logo, logo entro nas férias do trabalho, e até do curso de Alemão. Deixo todas as obrigações para trás, pelo menos as deste ano. É um “ufa” que eu não consigo evitar, sai da boca e ecoa no pensamento a cada vez que me lembro do ciclo fechando. Foi um ano e tanto!

Não gosto de listar – nem no papel, nem mentalmente – aquilo que quero fazer no próximo ano. Quando se vestem de “promessas de ano novo”, as metas acabam indo por água abaixo... E por isso não esperei para o dia primeiro de janeiro. Já voltei às atividades anti-calóricas (tem de tudo, um pouco – spinning, muay tay, malhação), já arrumei a gaveta-problema, já joguei fora as coisas que eu não queria mais, já escolhi as novas cores do apartamento, já reciclei os brinquedos do filho... oras! Não quero que o ano já comece cheio de preocupações! Para o dez, quero o inesperado. Janeiro será um mês ocupadíssimo... ‘muito ocupadíssimo’! Haja praia e rock para um mês inteiro de veraneio! Fevereiro vem com a programação: disciplinas, cursos, afazeres. Março, abril, maio, junho, julho...

Como eu ia dizendo, foi um ano e tanto. Um belo ano, novo ano! Foi o ano dos quereres realizados, do “por em prática” aquilo que eu sempre quis fazer, mas deixava sempre para o ‘só amanhã’... Dois mil – inove, como disse aquela propaganda. E foi muita novidade! A estreante escolinha do gordinho, meus novos cursos, os pingos nos “is”, amadurecimento (amor maduro é igual a fruta madura: uma delícia!), o desprendimento de pudores internos, enfim. Felizmente pude, pela primeira vez, escolher ‘à vera’ o que fazer. Foi um ano vitorioso... ai, que brega! Mas foi feliz. É o que importa.

Nesse ano também vi muita máscara cair. E olhe que eu fiquei de fora, só olhando, ein? Devo ter vocação para ser boazinha. Ou para ser, digamos, apática. Vi as traições de quem jura que é santo e de quem jura que não é traída, a falsidade de quem jura que não faz nada de mal, a hipocrisia de quem bebe e de repente se canoniza, a inveja de quem está ali por perto, mas não é por amizade, e sim por olho gordo, a mediocridade e a mesquinhez de uma multidão, gente com as quais somos obrigadas a conviver, sendo parente, amigo ou colega... Cá entre nós? O ser humano é um bicho que come bicho e defeca bicho. Tudo isso correndo por aí, a granel. E sequer cheguei perto. Aliás, cheguei, mas com a devida distância. Como aquele pessoal que usa máscara, para não pegar a gripe dos três porquinhos, sabe? Às vezes, pimenta nos olhos dos outros para mim é refresco.

Enfim, misturei os assuntos... É muita coisa para 12 meses de 2009. É muita gente nessa Torre de Babel. É muito idioma para aprender... Continuo depois.


Por sed non satiata * 5:38 PM

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Não conheço seu nome ou paradeiro
Adivinho seu rastro e cheiro
Vou armado de dentes e coragem
Vou morder sua carne selvagem
Varo a noite sem cochilar, aflito
Amanheço imitando o seu grito
Me aproximo rondando a sua toca
E ao me ver você me provoca
Você canta a sua agonia louca
Água me borbulha na boca
Minha presa rugindo sua raça
Pernas se debatendo e o seu fervor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador

Eu me espicho no espaço feito um gato
Pra pegar você, bicho do mato
Saciar a sua avidez mestiça
Que ao me ver se encolhe e me atiça
Que num mesmo impulso me expulsa e abraça
Nossas peles grudando de suor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador

De tocaia fico a espreitar a fera
Logo dou-lhe o bote certeiro
Já conheço seu dorso de gazela
Cavalo brabo montado em pêlo
Dominante, não se desembaraça
Ofegante, é dona do seu senhor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador




amoamoamoamoamoamaomaoamao meu caçador! heheheh

rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

Por sed non satiata * 3:58 PM

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[Sábado, Dezembro 05, 2009]


"Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa (...) O problema é que tenho que continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar esse computador, se eu quiser dar a descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles mesmos me causem horror. E horror é uma gentileza."

Bukowski

Por sed non satiata * 7:49 PM

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[Quarta-feira, Dezembro 02, 2009]


ZÉ NETO


O seu nome? O seu nome? O Zé Neto emite sempre um duplicado das suas frases. Pediu-me um cigarro, um cigarro. E fogo, e fogo. Só depois me perguntou o nome. Mônica, disse. Virou-se para os poucos circunstantes, o cigarro aceso entre o dedo médio e o anelar e anunciou, na voz volumosa e rouca: O nome oficial é Mônica. Mônica o nome oficial. Ninguém o ouviu. Também ninguém o olhou...

... Ele foi o flanelinha mais amável, doce e cordial que já vi. Sua aparência diria o contrário, mas a doçura de sua personalidade compensava. O sorriso tinha algo de pueril...


Um destes dias, encontrou-me numa loja e disse: Iogurte, iogurte. Acompanhou-me à prateleira e, antes que lhe perguntasse, apontou com os dedos grossos e sujos, peremptório: Destes, destes. Por entre a profusão de marcas que me confunde, O Zé Neto sabe o que quer. E por isso jamais neguei um iogurte ou algum pão caramelado, quando o vi. Não havia maldade naquilo que pedia: a maldade habitava sempre e apenas seu estômago - doía.


Quando os demônios o atormentam, grita ou canta. Sabe estribilhos de canções e repete-os. Por vezes, cria as suas próprias letras. Tão loucas como as de qualquer poeta em confusão.


Zanga-se muito. Só ele saberá com quem. É quando solta palavrões, alto e bom som, em duplicado, em triplicado, tantas vezes quantas a raiva o exigir. Como qualquer de nós gostaria de fazer.


O Zé Neto tem sempre muito calor. Há dias em que não suporta a roupa e se despe. Chega a ficar só com as cuecas. Claro que escandaliza as pessoas de bem. O Zé Neto não sabe que não é um jovem atlético e que a rua da vila não é uma “passerelle”.
Já o tenho visto dançar. Nos quadris tem ritmo de “twist”, e os braços ensaiam figuras de ginástica aeróbica. De fazer inveja a muito pé-de-chumbo que anda por aí.


Devo dizer que nem sempre é assim destrambelhado e exuberante. Hoje encontrei-o sentado numa praça, de perna cruzada, recostado, com um cigarro apagado entre os dedos. Tem fogo? Tem fogo? E nem sequer descruzou a perna. Aproximei o isqueiro. Aspirou fortemente, repetidamente. Entre duas fumaças, respondeu: Obrigado, obrigado.


Há dias em que o invejo. Tão livre, tão livre.
É doida, é doida.


Por sed non satiata * 7:36 PM

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[Segunda-feira, Novembro 30, 2009]


A tática mal sucedida de colocar bilhetes na geladeira foi deixada de lado. Eram lembretes que nunca colaboravam, inclusive... Frases como: “lembrar de comprar mais banana”, “acabou a água, trocar o garrafão”, “dentista no dia 08/10”, “beber mais água, tomar o remédio”, “tal filme, às 21h, no dia 25, no Telecine, não perder!”..., sempre eram ignoradas. O que faz uma pessoa escrever tais lembretes na geladeira e a própria es-que-cer de LÊ-LOS??? É muita ‘loirice’ para uma pessoa só...

Por sed non satiata * 5:34 PM

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[Sábado, Novembro 28, 2009]


Diz Sartre que o desejo se exprime por uma carícia, tal como o pensamento pela linguagem... eu suspeito que a linguagem é uma carícia e que o pensamento é um desejo.

Por sed non satiata * 1:33 PM

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Decidi que pelo menos por hoje serei displicente. Darei-me férias 'prolongadas', nas míseras horas do meu fim de semana. Tomarei a liberdade de ser um pouco fútil, beirando a superficialidade. Gastarei as horas que deveriam ser destinadas aos exercícios de alemão para boiar na piscina, tomando alguma coisa gelada. Meu bronze anda tão “água sanitária”...


Endoidar com as responsabilidades faz mal à saúde. O que é um dia diante de tantos outros numa correria absurda, não é mesmo? Afinal, só sobrariam, no final do dia, m-u-i-t-o cansaço, dores nas costas, mais coisas para fazer (são uma bola de neve!), olheiras, pouco tempo com o filhote lindo... Uma casquinha de sorvete e um passeio no shopping, por favor!


Felizmente, está tudo bem. O gordinho, o barbudo... e até a minha insônia, a qual vai de vento em ‘popa’.


Por sed non satiata * 4:08 AM

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PERFEKT!!!
Dies ist einer der besten Filme...

O veria por mais mil vezes...

http://www.youtube.com/watch?v=U9GMg3ecI6I





Por sed non satiata * 3:42 AM

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[Quinta-feira, Novembro 26, 2009]


Ontem caí em tentação e fiz o que eu havia prometido nunca mais (ou tão cedo) fazer: entrei em uma livraria... e a consequência foi, de cara, logo vista: me deparei com a Parte II de Fausto. Logo ali, na primeira prateleira, de frente para a entrada! Doeu... Era quase um palmo de páginas, as quais quase peguei para mim, num surto consumista...


Quer se apaixonar, ler um clássico dialético e conhecer um pouquinho de Goethe? Leia Fausto.




Os pensamentos de Johann Wolfgang Von Goethe, em seu livro [Fausto], configuram-se como uma adequada analogia ao pensamento dialético. A obra discute a existência de mundos contraditórios entre si, por meio da incansável e majestosa luta do protagonista, (representado por Fausto), o qual vive uma suprema angústia entre o bem e o mal.

O conjunto de memórias faustinanas ilustra de forma representativa a profusão de sentimentos conflituosos, que o sufocam em sua angústia e ao mesmo tempo o libertam em busca de um prazer que nunca se satisfaz. A dramaticidade poética de Fausto representa a própria dialética da vida quando ele se envolve em situações essencialmente contraditórias, na busca por esse prazer incognoscível...

Um dos lados de Fausto é visível e apresenta seu amor pela inocente Margarida. O outro lado, no entanto, jamais pretende expor a forma como ele foi conquistado. Sua insatisfação dialética pode ser retratada no momento em que esse amor, muito embora encontrado, não pode se realizar, tornando-o refém de seus próprios desejos.

Nas palavras de Goethe: “Que vida! Angústias sempre; ora a almejar por gozo, ora inquieto na posse, e do almejar saudoso”. Uma autêntica história de amor!


Por sed non satiata * 3:35 PM

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[Terça-feira, Novembro 24, 2009]


Para um ser tão polissêmico como o Homem, como só uma vida pode bastar? Só um sentimento não dá conta do recado... Como posso ser uno diante de tanta multiplicidade? São dois lados, são mil lados, ou quantos eu quiser que existam. Por que me resumir em um só percurso? Em meio a tantas cores, por que me dão a oportunidade de escolher só uma? O colorido é muito mais bonito!


é amor demais!


Nhá! Feliz!

Por sed non satiata * 7:19 PM

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[Segunda-feira, Novembro 23, 2009]


Na verdade, na verdade mesmo, assim, sem mentir, eu queria trocar todos os afazeres desta semana por pelo menos uma tarde tranqüila. Uma só... Sou exigente: as tardes precisam ser nubladas, chuvosas, úmidas. Detesto calor!


Tudo o que eu queria era uma cadeira bem almofadada, umas caixinhas de chá na mesa, uma garrafa com água quente, uma xícara generosa e algumas revistas. Apenas colocaria as pernas para cima e deixaria a tarde ir devagarzinho ao encontro da madrugada. Mas, como não tenho isso (só porque não tenho folga e porque não está chovendo), troco tranquilamente por uma noite de brincadeiras com meu filho. Aquele ali cura até minha pior enxaqueca!


Minha cabeça dói, não sei se é pelos afazeres ou se é pelas pendências... Ou os dois? Ou será o desespero: o tempo está passando rápido demais... E eu tive culpa no cartório. Permiti, fui displicente. É que quando a vida está tão boa a gente nem percebe que o tempo se incomoda e corre mais depressa... Coitado do tempo. A culpa não deveria ser dele, e sim nossa... Ao tempo só basta existir e andar – a nós também, mas de maneira mais complexa... E agora? Balela metafísica!


Tanta coisa para fazer, tanta peça para colocar nos eixos, tanta coisa para organizar... Muita coisa entrou precocemente na minha vida. Deve haver algum motivo para isso... É lugar comum, mas é fato: as coisas não acontecem por acaso. Resta a mim um esforço maior para manter tudo no lugar. O problema é que existe muita gente mesquinha que não se satisfaz nem um pouco com a alegria alheia, e ao invés de dar apoio, atrapalha! Isso eu chamo de amargura – porque inveja é um sentimento muito subjetivo, só sabe quem sente, está dentro dela e não de mim -, ou até, quem sabe, ‘falta-do-que-fazer’. Se a vida não foi fácil para você, não pense que está sendo para mim. Se não lhe faço mal, não queira me prejudicar...


Aaa!!!! Quanta coisa para fazer! I wish I was a supergirl...





Por sed non satiata * 5:28 PM

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"A serpente e o vaga-lume


Conta a lenda que uma vez uma serpente começou a perseguir um vaga-lume, que fugia rápido, com medo da feroz predadora.
A serpente nem pensava em desistir. O vaga-lume fugiu um dia, dois dias... e a serpente não desistia. No terceiro dia, já sem forças, o vaga-lume parou e disse à cobra:

-Posso lhe fazer três perguntas?
-Não costumo abrir esse precedente para ninguém, mas já que vou te devorar mesmo, pode perguntar...
-Pertenço à sua cadeia alimentar?
-Não.
-Eu te fiz algum mal?
-Não.
-Então, por que você quer acabar comigo?
-Porque eu não suporto ver você brilhar."


E assim também é na nossa vida... Muitas pessoas não ganham nada prejudicando os outros, mas ainda assim não conseguem conviver com a felicidade alheia. Nisso, tentam fazer de tudo para que "sequemos" e até mesmo para atrapalharem a nossa vida.

Para muitos, o brilho dos semelhantes incomoda... Pense nisso e selecione as pessoas com as quais você quer conviver. Mas cuidado quando essas pessoas forem inevitáveis...

Preciso dizer mais alguma coisa??

Por sed non satiata * 4:30 PM

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[Sexta-feira, Novembro 20, 2009]


Sentada no chão da sala, com o bebê, me vi diante da estante (des)arrumada. Não tive certeza se o que eu via eram livros já relidos ou jamais codificados... nisso, decidi recapitular tudo o que já li. Sem saber por onde começar, disse ao meu filho: meu amor, pegue um livro para mamãe ler, pegue...


Assim, não sorteei ao léu qual seria o primeiro, mas deixei a cargo da inocência da criança a escolha do livro. Algo que parecesse intuição...


Então ele buscou. Tateou com sua mãozinha miúda algum livro – pequeno – que coubesse na sua obediência de me atender. Como quem ganhava um presente, esperei ansiosa para ver qual teria sido a escolha. O livro sorteado era simplesmente aquele dos quais mais gostei de absorver: Os Maias. Já ouvi falarem muito mal desse livro: "é um saco!". Obviamente eu sabia que assim não era, porque quem o disse tinha pinta de achar “Crepúsculo” uma excelente obra literária.


Não consigo resumir em palavras a sensação depois de absorver até o último segundo cada palavra dita por seus personagens. Final do século XIX. A beleza de Lisboa, Cintra e toda a cultura e magia da época. Poetas, aristocratas, anarquistas, Românticos, religião e família. Essa história é rica em todos os seus detalhes. Trata-se principalmente da abordagem dos amores proibidos. O sofrimento. A paixão. Os desencontros. A loucura. O destino... E por que não dizer: desatinos!?


"Os Maias" nos faz refletir sobre nossas buscas. Sobre nossos sonhos e desejos. Ele é um convite aos questionamentos mais íntimos.


Até que ponto a paixão deve e pode ser evitada? Até que ponto conseguimos ser racionais o suficiente para não nos deixar levar pelos devaneios de nossas emoções? Até que ponto a paixão nos faz cometer loucuras? E nunca deixará de ser tão piegas ser louco... E tão clichê se apaixonar. Até que ponto chega um homem ao decidir, após o não bem-sucedido amor, acabar com sua própria vida? E esse “acabar com a própria vida” não poderia ser também psicológico? Quantos suicídios “filosóficos” nós temos, dia após dia... quantas coisas simplesmente decidimos esquecer, numa eterna compensação, num eterno “para frente é que se anda”? Quantos ciclos fechamos, e quanta vida deixamos morrer, em nossa mente, para que outra nasça? É a superação.



Talvez o pensamento dito por Afonso da Maia seja a mais pura verdade: "Um homem que não governa suas paixões não é capaz de governar sua própria vida". Poderíamos dizer que se trata de uma verdade absoluta, quase universal. Pelo menos, é o que eu escreveria numa bula, se “apaixonar-se” fosse algum medicamento. Ou então, seria o slogan da propaganda, caso “apaixonar-se” fosse um vício: aprecie com moderação.



Controlar as emoções: foi uma das principais mensagens passadas por Eça, em "Os Maias". A prova viva de que alguém que vive constantemente ditado por seus sentimentos passará sua vida inteira refém da sorte e do destino, confuso no meio de suas dúvidas e inseguranças. Mas e quem disse que isso é ruim? Aqui não se trata de mensurar isso. Até opino: não vejo a vida como aquilo que se separa das emoções. Mas, por meio de Eça, penso que o que precisamos saber é: ponderar.



Entre todas as lições que essa obra nos ensina, para mim a primordial, a predileta, a maior e mais significativa foi a lida em tal passagem:


"- Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que se não deve fazer, por ser um pecado que ofende a Deus, já ele sabe que se não deve praticar, porque é indigno de um cavalheiro e de um homem de bem...

- Mas, meu senhor...

- Ouça, Abade. Toda a diferença é essa. Eu quero que o rapaz seja virtuoso por amor à virtude e honrado por amor à honra; mas não por medo às caldeiras de Pêro Botelho, nem com o engodo de ir para o Reino do Céu...".



Devemos ser virtuosos por amor à virtude, e honrados por amor à honra, e não por medo do Inferno... Afinal, o inferno são os outros (já diria aquele Sartre). E é assim que eu penso, principalmente por saber que preciso educar uma pessoa. Apesar de respeitar a religião e a fé – dos outros, acredito que meu filho não deverá mentir (nem fazer qualquer outro mal), não por ter medo de pecar e assim ser punido por Deus (“papai do céu castiga!”), mas sim pelo simples fato de que o mais importante é ter amor pelo que é virtuoso e honrado, simplesmente porque é o certo. Isso separa o homem do banal e do senso comum, de que tudo é inquestionavelmente divino (porque isso limita o raciocínio do homem, na minha opinião), e de que se não agir corretamente, pecará e irá para o Inferno. Isso é estúpido!



Enfim... "Os Maias" deve ser uma leitura obrigatória para os amantes de escritores romancistas. Eça de Queiroz foi um dos maiores, e por que não dizer, o maior escritor português realista de seu tempo.
Fazer a viagem e viver a fantasia dos Maias é fechar os olhos e mergulhar fundo nos mais secretos abrigos e perguntas de nossa alma.






[ A casa onde os Maias viveram em Lisboa, no outono de 1875. Ela era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. In Os Maias, 1888 ]


...Voltando às paixões...


Ficará gravado para sempre em minha memória o último diálogo entre Carlos Eduardo da Maia e João da Ega, sobre suas conclusões sobre a existência:

“Ao menos acertamos a teoria definitiva da existência, nada a desejar, nada a recear, não se abandonar a uma esperança nem a um desapontamento, Tudo aceitar, o que vem e o que foge... Se me disserem que ali embaixo estava a maior das fortunas à minha espera para ser minha se para lá eu corresse, não apressava meu passo, não saía desse meu passinho lento, seguro, prudente que é o único que se deve ter na vida. Não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma, Nem para o amor, Nem para a glória, Nem para o dinheiro, Nem para o poder." (Trecho retirado de "Os Maias" de Eça de Queiroz - ou Queirós).

Um convite à reflexão, não acham?




Por sed non satiata * 3:56 PM

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[Terça-feira, Novembro 17, 2009]


Adentrando por alguns minutos na pandemia nojenta do complexo de Big Brother (e saindo dela praticamente fugida, socorro!), penso: se - hipoteticamente - minha vida fosse filmada por câmeras, instaladas por todo o apartamento, vocês obviamente não veriam uma gostosa de biquíni, lutando para posar em alguma revista, ao ser expulsa da casa... Mas sim veriam uma boneca “mignon”, no estilo “playmobil robótico”, completamente frenética, fazendo mil coisas aparentemente heterogêneas e desconexas, mas compondo uma rotina que consome, ao invés de nutrir. Mentira, ela nutre também. Senão, isso não seria felicidade, e não haveria razão para permitir que tal rotina continuasse. Dentro dessas paredes coloridas, entre os móveis de tom escuro, minha vida se perpetua entre madrugadas, manhãs, tardes, noites...


Sou uma (a)típica jovenzinha de 24 anos que estuda o que gosta, cursa e cursou o que sempre quis... Faz o que sonhou. Por enquanto, continua satisfeita na pretensão de se formar em Filosofia e fazer Psicanálise. Sou casada - “de Medeiros Dantas” por excelência, como sendo a junção do passado e do presente/futuro, como diz meu risco no braço – mãe aos 21, precoce, libriana (?), palmeirense (?), e isso até parece questionário de reality show...! Trabalhadora que anseia pelo querido salário do fim dos meses, esposa de um artista, grata por gostar e poder acompanhar a sua rotina noturna, e por aí vai...


São tantas coisas existindo e sendo feitas, mas com a sensação de ainda não ter chegado aonde quis. Diariamente, tudo acontece não da mesma maneira, mas dentro do que o roteiro pede. Resta a mim repetir num fôlego só. Acordo, bom dia! mais cinco minutos, transo, durmo, desperto, já tomo o banho, arrumo a cama, às vezes nem isso...já sou recepcionada pelo bebê (o qual já está a mil por hora, correndo de lá para cá), tropeço em brinquedos pelo corredor, bebo um copo de água, evito que o filho coloque o DVD sozinho, e em alguns segundos já estou na cozinha fazendo alguma coisa, e imediatamente não estou mais, estou pendurada na prateleira, pegando o material de estudo...e aí vem o banho do filho, colocar a farda, “fazer a barba e partir”..., deixá-lo na escola, ir para o trabalho, imprimir os afazeres, aula, “missa e gibi”... já à noitinha, após a longa noite de aulas, depois de embalar o pequeno, juntar a bagunça do dia, tomar meu banho e escovar os dentes... 'tudo ainda não parou'. Num momento, estou na cama transando. No seguinte, beijo, boa noite, e me dirijo ao escritório. Copos de água... assim a caminhada de ida e volta da cozinha é infinita. Finalizo o artigo no computador, corrijo uns textos, remexo fotos e músicas (ninguém é de ferro) e volto para o quarto para ver um filme, sempre pela metade, porque o sono não deixa... Acabou? Então durmo, acordo, estudo, faço as atividades de alemão na sala e depois já não estou mais lá. Preciso varrer a casa, lavar a louça e arrumar a cama. (Por sorte, todas as atividades domésticas também são feitas pelo maridão, muito prendado. Então, durante muitas vezes o que eu não preciso fazer é substituído por coisas que nunca têm fim. Não há tempo livre.). Almoço e ao mesmo tempo sirvo o filhote, são dois garfos de tamanhos pequenos em um prato só, porque ele não gosta do pratinho dele. Raspo a comida que sobrou nos recipientes, jogo no lixo ou guardo (dependendo da situação), termino de beber o suco e já não dá mais tempo para nada, senão me arrumar às pressas. Ainda insisto em gastar 20 minutos para arrumar o cabelo. Desço e subo no elevador, abro e tranco a porta, busco as compras. Brinco, cato bolinhas, arrumo a bagunça, limpo a tinta nos móveis, descasco sem querer o esmalte que pintei há 3 dias, faço um café, sento ao lado do marido, no computador, opino sobre seu trabalho, conto umas fofocas ao melhor ouvinte do mundo, dou-lhe uns beijinhos e volto para a mesa da sala, já são 17h e a aula do bebê terminou, desenho com meu filho, ligo a TV no canal de desenhos, faço a unha, entro no banheiro e...


...e só consigo pensar na água morna que desce do chuveiro, no sabonete cheiroso, no creme especial para o cabelo, na toalha enorme e macia, no tapete felpudo onde finco os pés por minutos, como num ritual... e aí procrastino a hora de me vestir, creme após creme (do pé, da mão, dos braços), mecha após mecha de cabelo, a ser penteada.


O parágrafo maior me tirou o fôlego, enquanto o posterior pareceu durar uma eternidade... conseguem me entender?


Querendo ou não, dá vontade de chorar. Não aquele chorar físico, mas, se existisse, seria só mental... É de explodir! Não me refiro à minha rotina como sendo a melhor do mundo, existem muitas rotinas onde empregos mais desgastantes e serviços domésticos mais pesados prevalecem. Meu ponto de ênfase aqui é a correria do dia-a-dia. O compositor teima em lembrar: o tempo não pára. Não é isso?


Inevitavelmente, sou só mais uma habitante de um mundo completamente movido a correria. 24 horas não são suficientes para n-a-d-a. Pela lógica improvisada, se dividíssemos uma hora para cada coisa que queremos e precisamos fazer, seriam 24 coisas apenas. Você se imagina fazendo apenas 24 coisas por dia? Claro que sim. Mas 24 coisas feitas separadamente? Uma após a outra, metodicamente? Você consegue assobiar e chupar cana ao mesmo tempo? Claro, lógico que eu consigo passar roupa ou lavar louça e ao mesmo tempo estudar alemão, é só colocar o CD. Mas e quanto a dormir e trabalhar, ou... sei lá? Enquanto me tranquei aqui no escritório e deixei o bebê na sala com o pai, para que não ficasse aqui entrando e saindo, pedindo atenção, interrompendo a minha concentração, você acha que foi eficaz? Nem consigo me concentrar, nem nada. Continuo ouvindo o “mamãe, mamãe, vem cá.../mamãe está trabalhando”, e concluo que não estou nem aqui, nem lá, com eles. Ou seja: não tenho uma coisa para cada hora, mas sim, uma bagunça dentro de 24h... Liste tudo o que você faz. E liste o que você ainda não fez e ficou para amanhã. Não lhe dá um desespero??? Principalmente quando o fim de ano está próximo, junto com aquele clima de ciclo encerrado. Aquelas promessas de ano novo inevitavelmente surgem, do emagrecer ao conseguir um emprego, ou namorado, e por aí vai... Nisso, todo mundo é igual. Mas, voltando às 24 coisas. Hoje, com certeza não fiz só 24 coisas. Nem pude tirar, por exemplo, uma hora inteira para o filho, mas sim uma hora para filho, para enxugar a louça que o maridão lavou, para o capítulo de alemão e para o banho (por sorte, o filhote ainda está numa idade não-constrangedora ao tomar banho com a mãe. Ou não?). Na outra hora, além de trabalhar, precisei lanchar e organizar a mesinha.


Minha promessa de ano novo será: comprar uma agenda nova, e maior. Saudade de quando era apenas: emagrecer, arrumar o quarto, obedecer aos pais...!


Ainda preciso arrumar a árvore de Natal. Tenho que marcar a consulta com a ginecologista. Preciso escolher as cores novas para a sala. Preciso ir ao ortomolecular. Pegar o resultado do exame de urina. Aqueles 16 livros que guardei para ler nas férias...? aquela lista de livros para quando o salário sair? Tenho que terminar os trabalhos pendentes. Preciso ver aquele intercâmbio na Alemanha. As 9 páginas daquele artigo...! reunião para o trabalho em grupo. Passar pano no chão. Arrumar as gavetas do armário. Preciso ir ao banco atualizar meu CPF. Aliás, tenho que ir na Ribeira, para pegar a carteira de trabalho. Tenho exame de sangue para fazer. Amanhã tenho prova. HOJE tenho prova. Marcar consulta no pediatra. E no oftalmologista. Acabou o chá. Comprar mais leite.


Conclusão: as 24h não foram suficientes nem para 1000 coisas, quanto mais para 24. Tenho pendências para encaixar na rotina dos próximos 365 dias... Por isso, não condene se eu precisar de uma cervejinha gelada e de uma carteira de cigarro, qualquer dia desses. É meu modo fútil e nefasto de soprar loucura. A vida é corrida demais! Clichê puro!


Dá uma frustração enorme. Mas não é culpa de ninguém... Não é algo que só acontece comigo. É o que justifica a vida não durar um dia apenas. É o que explica a natureza humana, o logos que nunca é alcançado, senão ano após ano, até a hora da morte.

Muita gente tem filhos, trabalha, estuda. É o tempo que é curto... Ou seriam as coisas aumentando a cada dia? Pare e pense: se uma pessoa comum ainda insiste em inserir na rotina mais uma aula de pilates, por exemplo, ou qualquer outra atividade da moda, mas com o tempo curto, como faz? Simplesmente surta? Extravasa no trânsito das 18h, na volta para casa? Procura ajuda? Faz análise? Uma hora com seu psicanalista?


Opa,mas ‘peraí’: não será essa minha profissão?


A cobra mordeu o próprio rabo: é o ciclo da rotina perseguindo e assombrando...






Por sed non satiata * 7:12 PM

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[Quarta-feira, Novembro 11, 2009]


A BORBOLETA AZUL


O título sugere a lenda. Muitos devem conhecer a historinha que circula pela internet entre os amigos, intitulada “a borboleta azul”. A lenda conta que uma menina curiosa decide colocar à prova o velho sábio, por duvidar de que fosse realmente um sábio. Tomou nas mãos uma borboleta azul, escondeu as mãos com a borboleta para trás, foi até o sábio e disse: tenho nas mãos uma borboleta azul, ela está viva ou morta. Antes que o sábio respondesse, tinha preparado o seguinte ardil: se ele disser que está viva, eu a esmago e ela estará morta - ele não é um sábio. Se ele disser que ela está morta, eu a deixo voar - ele não é um sábio. Mas o sábio - como podíamos esperar - foi muito perspicaz em sua resposta, ele disse: Ela está em suas mãos, depende de você.



Esta lenda nos propõe questões muito profundas. Podemos começar por refletir a respeito do significado da borboleta. A borboleta é o resultado de um processo de metamorfose. Primeiro é larva: torna-se crisálida e depois, finalmente, borboleta. Também é um dos símbolos mais significativos da Psique. Em algumas imagens a “menina psique” tem asas de borboleta, quando aparece em quadros ao lado do belo “menino Eros” o qual tem asas de pássaro.



Na Grécia antiga, quando a borboleta emergia do casulo (da crisálida), dizia-se que este momento era idêntico à profunda liberação, equivalente ao atingir da imortalidade. Simbolicamente, cada um de nós trás em si a possibilidade desta metamorfose. O que significa, pois, cada um destes estágios?



Há pessoas que não conseguem deixar o casulo. Para elas, a vida é pesada, velha, monótona, inútil, sem sentido. Partes de si mesmas, ficam aprisionadas no passado, o qual a pessoa reluta em deixar, ou porque não sabe como fazê-lo, ou porque não tem coragem de fazê-lo, ou porque teme demasiadamente o futuro. Aquele que consegue libertar-se do casulo é aquele que consegue aceitar o paradoxo de vida e morte, que se repete continuamente a cada novo padrão de crescimento. O medo de deixar os velhos padrões impede o vôo. No centro dos velhos padrões e do medo de deixá-los, está a insegurança. O medo da mudança está aqui, porque a criança que delega a responsabilidade sobre si mesma a outrem continua predominada na vida de indivíduos adultos. Voar é responsabilizar-se, pelo bem e pelo mal, ou, pelo além do bem e do mal.



Viver é fluir com a mutação. Em termos da alquimia oriental, isto significa “seguir o Tao”. Fluir implica uma grande capacidade de suportar a solidão. Dizemos suportar, porque quando começamos a tomar consciência de nossa solidão o que queremos é fugir dela. Parece algo abominável, terrível. Nada nem ninguém a quem possamos nos “agarrar”; nada nem ninguém para quem correr. É um tempo muito ameaçador. Não sabemos ainda, neste tempo inicial, ‘que’ ou ‘se’ podemos contar com nós mesmos. Mas para aqueles que se propõem a suportar a própria solidão, está reservado o nascimento do herói dentro de si. É o herói que poderá criar dentro de nós um núcleo de segurança, uma confiança e uma certeza inabaláveis.



Jung escreve que o sacrifício necessário para se chegar a ser quem se é, é o sacrifício do “homem natural”, da inconsciência, da ignorância, da ingenuidade. A meta de todo o processo de individuação junguiano é a consciência do Si-mesmo, ou seja, o centro regulador da psique. O Si-mesmo começa a manifestar-se através do conflito. A cada novo aumento de consciência, temos conflito. Podemos ficar aprisionados andando em círculo, ou podemos fluir andando em espiral. Há uma mudança sutil cada vez que atingimos um novo nível da consciência em espiral. Para tal, requerem-se muitas condições. Requer-se um trabalho lento e gradativo, difícil e em certas épocas lancinantemente doloroso. Devido a tais insuportáveis dificuldades, por exemplo, grupos se reúnem formando comunidades religiosas para criar com isto um contenedor, um suporte para o indivíduo poder baixar às suas próprias profundezas, às suas próprias sombras. Sem um contenedor, pode o processo tornar-se insuportável. Neste sentido, o consultório do analista é um contenedor por excelência. Para que a crisálida seja mantida viva, é preciso que esteja acontecendo a retirada das projeções.



Em seu livro “Puoi volare, Farfalla”, Marion Woodman nos deixa algumas vozes da crisálida:



“É difícil para mim, crer na vida...
O que estou fazendo com o meu tempo? Jogando- o fora? Não sei... não sei... esta solidão é terrível...
Estou sempre tentando ser o que não sou...
Estive tão ocupado fazendo que parece que perdi algo de muito precioso para mim...
Estou combatendo o meu destino... o que ele quer de mim?”



São muitas vozes, muitos sons. Muitas vozes também convidam-nos a voar, uma delas é de W. Goethe:



“Há uma única Verdade elementar, cuja ignorância mata
inumeráveis idéias e explêndidos planos:
no momento em que, empenhamo-nos a fundo, também a Providência
então se move. Infinitas coisas ocorrem para ajudar-nos,
coisas que de outro modo, não poderiam nunca acontecer...
Qualquer coisa que possas fazer,
Ou imaginar poder fazer,
Começa-a .
A audácia tem em si gênio, poder, magia.
Começa agora”.
W.Goehte.
Sonia Regina Lyra crp – 08/0745.




Para isso, uma borboleta na asa humana. Asas azuis nas minhas asas de braço - pele e osso. Ali, perto das palavras de Goethe, aquelas a respeito do tempo e da essência...




Por sed non satiata * 11:29 AM

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[Quinta-feira, Novembro 05, 2009]


De certa forma, dizer que algo “depende do ponto de vista...” é um tanto quanto “bastante relativo”.

Mas quando você acorda com aquela dor de cabeça, com a garganta tão inflamada que mais parece que engoliu duas laranjas que ali permaneceram, quando as mãos tremem em virtude de sua fraqueza; quando sua voz está igual à do Pato Donald, e quando sua febre está tão não-singela que uma colcha grossa não é suficiente; quando o corpo dói até com o vento soprando... e quando sua cabeça mais uma vez roda, roda, roda... Você quer dizer: que merda! Maldita saúde tosca! Maldita garganta inflamada! Maldita doençazinha!

Mas aí é que entra o “depende do ponto de vista”.

Sem precisar sair de casa e sem a necessidade de tirar da bolsa o cartão do plano de saúde, tenho um médico de plantão. Injeção é ruim? Depende do ponto de vista. A dele é uma delícia! Carinhos, dengos, comidinha na cama, chazinhos, cafunés, abraços, colocar para dormir, ajuda nos afazeres caseiros, filminho até mais tarde, guloseimas gostosas, ajuda no banho...

Ficar doente só é ruim quando o ponto de vista é outro.


Por sed non satiata * 10:41 PM

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[Quinta-feira, Outubro 22, 2009]


TRUE - Spandau Ballet


So true
funny how it seems
always in time, but never in line for dreams
head over heels,when toe to toe
this is the sound of my soul
this is the sound
I bought a ticket to the world
but now I've come back again
why do I find it hard to write the next line
when I want the truth to be said

I know this much is true

With a thrill in my head an a pill on my tongue
dissolve the nerves that have just begun
listening to Marvin all night long
this is the sound of my soul
this is the sound
always slipping from my hands
sand's a time of t's own
take your seaside arms and write the next line
oh I want the truth to be known

Por sed non satiata * 6:16 PM

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Sem devaneios: isto é um grito literal que rompe e recorta a noite em retalhos. Sem tecidos, a nudez tão reveladora e pura que consome vísceras em luxúria - mas oniricamente...! Sem adornos, nem consolo frágil em peças de ouro branco e marfim, que queima a retina com um degelo contínuo. Sem topázio, sem lirismo. Apenas uma túnica feita de brincação, lúdico com lúcido sentido - um clarificar do dia, dos olhos que fitam - o mundo de dentro de uma maçã, indefectível.

É dentro da maçã que a borboleta sonha com as asas...

Por sed non satiata * 12:11 PM

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[Terça-feira, Outubro 20, 2009]


- Se algo dói ou não, quem pode responder é quem sente. Não meça a dor dos outros, como também não medirei a de ninguém. O que dói, dói de dentro para fora, subvertido em lágrima e ruídos. A dor, assim como a lágrima, é subjetiva. – assim falou a mocinha do parque.

Eu lhe respondi:

- e quem disse que dói? Se doer em você, tudo bem, mas eu não sofro desse mal.

- se dói em uma pessoa normal, por que não doeria em você?

- é que eu já me anestesiei há muito tempo... - falei.

- e como foi isso? - perguntou ela.

- me apaixonei.

- e isso não faz piorar a dor não?

- depende. Se você conseguir digerir esse amor, você não sente nada, além de bem-estar. Mas se você não digeri-lo bem, entala e então você engasga.

- não entendi...

- Existe quem se apaixona e vive isso em companhia de alguém (em retribuição), e há aqueles que amam, mas amam só. No momento em que me apaixonei, vivi isso em dupla - e me esqueci das dores e dos desamores; Eu estava muito ocupada sendo feliz o tempo todo. Até exagerei, em algumas vezes... Além disso, pelo simples fato de eu não deixar espaço para dor, ela simplesmente deixou de existir. É a lei do uso e do desuso. Parei de usar a dor, e ela sumiu. A mesma coisa acontece com quem não guarda espaço para o amor. O sentimento atrofia. O corpo de carne vira de pedra, e por aí vai... mas é isso. Minha dor atrofiou há muitos anos.

- puxa, você deve ser muito feliz então, né? Deve ser muito bom não sentir dor... - pensou ela.

- nem tanto...

- por que?

- porque quem atrofia a dor não consegue mais chorar. Já imaginou alguém que precisa e não consegue chorar??

- não, nunca.

- pois bem. Você chora, e portanto, sinta-se satisfeita. - concluí, peremptoriamente.

- você deve estar certa...

- e tem mais. Às vezes quem só ama atrofia, além da dor, a razão... e isso é péssimo.

- por que?

- amar sem razão é um perigo, é precipitar-se: jogar-se no precipício a qualquer momento.

- não tinha pensado nisso...

- nunca, nunca deixe de amar. Mas também, por isso, não deixe de sentir dor, nem de pensar antes de agir. Amor e razão são tipo irmãos, primos... Separados no começo da humanidade. Ou algo assim...

- será?

- não sei, mas parece. Agora beba o café, que já deve ter esfriado...

- desculpa, mas nem sei o seu nome ainda...

- me desculpe! Me chamo Mônica...

- ah, prazer, me chamo Seu Inconsciente.


Por sed non satiata * 5:09 PM

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Embriaguez, sede e saudade. Eu não sei o que vai acontecer amanhã, mas sei que hoje eu estou vivendo. Não sei o que virá depois da hora de acordar, mas sei que pelo menos os segundos, mesmo arrastados, estão passando, no dia de hoje... e a cada segundo deixado para trás, um suspiro de alívio... Passou. Passou. Passou. Passou... e por aí vai.

Nada pior do que essa fase para se ser libriana. Indecisa, equilibrada numa balança de incertezas e decisões. Saudade e convicção se igualam, mas só o tempo vai saber dizer qual vencerá. Por enquanto, tatuo um olhar distante na janela do meu quarto, e deixo empedrar o cuspe engolido, do nó na garganta...

Saudade, saudade, saudade. Muita saudade. Mas, se bem me lembro, ela está na balança... Assim como o vinho está na geladeira. Abrindo-o hoje, o que acontece com a saudade? Acorda de ressaca? Evapora-se? Sai na urina?


Por sed non satiata * 4:52 PM

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[Segunda-feira, Outubro 19, 2009]


Tem gosto de terra, sabor e dissabor de capim. Cheira a mofo, e é pior do que cheiro de grama molhada. Não tem cor alguma, mas tende ao cinza. É áspero, corta, arranha, machuca. Chamam de burrice, mas eu gosto de como o apelidei: impulso.

Por sed non satiata * 10:37 PM

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[Quinta-feira, Outubro 01, 2009]


Saber é uma conseqüência do sabor. É primeiro, antes de tudo, saborear o conhecimento, beber o suco das informações e descartar o bagaço. É engolir todos os paladares; é a antropofagia – é comer a nossa cultura e as demais, regurgitando música, poesia, literatura e empirismo. Saber é sabor.

Por sed non satiata * 5:20 PM

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Hoje eu estava longe. Definitivamente, longe. Não ouvi o que leram sobre Epicuro, na aula da tarde, nem dei muita importância ao que dizia o professor de Metafísica, mesmo depois de um café. Eu estava bem longe dali, mas ainda assim no meu lugar. Distraída, me peguei rabiscando a carteira, coisa que nunca faço, ou que só fazia quando era pequena, quando escrevia: “Juquinha, coração, Mônica”. Gastei o grafite com desenhos abstratos que não diziam nada, desenhados ao léu, que nada me expressavam. É assim que fica alguém quando está dormindo demais...ou será que é pela aproximação de Outubro?

Por sed non satiata * 5:20 PM

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É marrom, mas tem um desenho em tinta óleo, no amarelo, no vermelho, no rosa, no verde, e nas cores que quiserem imaginar. É compacto, cabe na bolsa. É desorganizado, mas bem cuidado. É uma mistura de quereres...

Olho as páginas do meu caderninho e leio as anotações do que eu quiser no momento guardar. São as aulas de Metafísica, as aulas enfadonhas de Lógica, as aulas de Psicanálise, os exercícios de alemão, a análise dos poemas, o “lembrar de comprar mais couve e pilhas para o relógio; acabou o açúcar”. Tudo junto. Uma página atrás da outra, desrespeitando data e cabeçalho. Tudo misturado. Misturados da mesma maneira estão meus afazeres, meus “por fazeres”, nossas roupas no chão...


... nessa releitura homogênea vejo subjetivamente Sócrates como um personagem arquetípico – ele é o que sabe tanto, mas reconhece que a respeito de nada sabe. Relendo e paginando meu caderninho, concluo que nada, poxa... nada sei. Nada, ainda... mas o “não-saber” é justamente isso: a busca constante do “saber mais”, é a procura de um logos, ou um pseudo-logos, ou de verdades ou falsas verdades (o que me for conveniente no determinado momento)... afinal, não sou Narciso ao deparar-se com sua existência: ainda não morreu meu acervo de vivências!

Não sei qual lição tirarei ao final da última página, nem qual objeto de estudo ou de escrita me ensinará mais, tampouco qual a próxima anotação... mas sei que a última frase da última linha da última folha será: comprar outro caderninho.


Por sed non satiata * 5:01 PM

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[Terça-feira, Setembro 22, 2009]


Nesta semana acontecerá o Festival Literário da praia de Pipa. Em virtude do meu relaxamento de ultimamente, por causa das ocupações adicionais, só vim saber do FLIPA hoje, graças ao meu amigo Luzardo. Surtei assim que soube. De início, senti um desespero, e logo me veio à cabeça: puxa, vou perder! Depois, como boa cidadã brasileira (e não mais, apesar de nunca ter sido, alemã), pensei no “jeitinho” que eu poderia dar. Programei carro, horário, faltar trabalho, faltar aula e até faltar o congresso, só para ir ao menos um dia até Pipa, nem que fosse para uma palestrinha. Ai, mas faltar trabalho...! ai, mas tenho aula...! ai, mas e o congresso? Me animei tanto, me inscrevi, e agora faltar? Ai, e tem o bebê... e tem o maridão... e no final das contas os empecilhos só existem para quem permite que existam. Acho que vou. Quero reencontrar o discurso de Marina Colasanti. Desde a penúltima bienal não vejo uma palestra dela. Será que consigo dedicatória no livro, de novo? Sei que a partir de agora a quinta e a sexta-feira foram reprogramadas: Pipa.

Torçam... E quem quiser ir comigo, me avise!
Aqui vai a programação.

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I FLIPA: FESTIVAL LITERÁRIO DA PRAIA DE PIPA - PROGRAMAÇÃO
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(programação - enorrrrme - apagada, para não bagunçar o blog :D)


Por sed non satiata * 5:13 PM

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[Sábado, Setembro 19, 2009]


A cena era banal. Aliás, demasiada banal, resvalando para o prosaico. Mas desatou em mim uma enfiada de reflexões sobre a sociedade moderna que não pude evitar. A reflexão filosófica não escolhe hora nem lugar para se manifestar. Tampouco escolhe objeto. Basta o lampejo da percepção de algo que nos pareça fora do lugar, ou em contradição com alguma ordem lógica abstrata, no mundo ou em nós mesmos, para que nossos mecanismos sensoriais se mobilizem, alheios à nossa vontade.

Eu estava no cinema, na semipenumbra que antecede o início de uma sessão. Dir-se-ia uma versão moderna da caverna de Platão, com seu teatro de sombras feito de pessoas procurando o melhor lugar para se sentar.

Eis que entra um casal de namorados e se senta duas fileiras adiante. O ângulo perfeito para uma observação involuntária, uma vez que as poltronas são dispostas em acentuado declive. O rapaz segura um pacote de pipoca do tipo “jumbo” e um copo de refrigerante. Assim que se acomodam, passam a comer a pipoca e a compartilhar o canudinho do copo, provocando no ambiente os estalidos característicos do pacote sendo manuseado.

A sessão está para começar. O teatro de sombras vai se tornando rarefeito de vultos em busca do melhor ângulo diante da tela. A pipoca, percebo agora, não é privilégio do casal que eu perscrutara há pouco. Logo vários estalidos são ouvidos no interior da caverna, entremeados pelo som do milho sendo mastigado. A antessala perfeita para o entretenimento, uma das facetas que o cinema assumiu no século XX.
A julgar pela disposição do público, é de se esperar que o filme seja alguma comédia nonsense, do tipo “Se eu Fosse Você” ou algum blockbuster vertiginoso, no melhor estilo “Titanic” ou “Parque dos Dinossauros”. Mas também pode ser algo na linha “Sexta-feira 13”, ou “A hora do Espanto”.

O filme era “Milk – A Voz da Liberdade”, do diretor Gus Van Sant, com Sean Pean interpretando Harvey Milk, o ativista dos direitos civis dos homossexuais nos anos 1970, o primeiro gay a ser eleito para um cargo público no conservador Estado da Califórnia. A história, baseada em fatos reais, é barra muito pesada. Descreve a crua realidade dos gays daquela região, com seus conflitos existenciais e sua militância. Um drama que, de certo modo, ainda se arrasta pelos dias de hoje.

Nada que recomendasse a festiva cacofonia das pipocas sendo mastigadas ou dos saquinhos sendo amassados, alguns deixados à sorrelfa no assento, enquanto os créditos finais deslizavam na tela. Saí do cinema conjecturando se aquilo era reflexão filosófica ou ranhetice da minha parte. Desconfio que não era ranhetice.


Por sed non satiata * 8:40 PM

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[Quarta-feira, Setembro 16, 2009]


Votos de submissão - Fernanda Young

Caso você queira posso passar seu terno, aquele que você não usa por estar amarrotado.
Costuro as suas meias para o longo inverno...
Use capa de chuva, não quero ter você molhado.
Se de noite fizer aquele tão esperado frio poderei cobrir-lhe com o meu corpo inteiro.
E verás como minha a minha pele de algodão macio, agora quente, será fresca quando Janeiro.
Nos meses de outono eu varro a sua varanda, para deitarmos debaixo de todos os planetas.
O meu cheiro te acolherá com toques de lavanda - Em mim há outras mulheres e algumas ninfetas - Depois plantarei para ti margaridas da primavera e aí no meu corpo somente você e leves vestidos, para serem tirados pelo total desejo de quimera.
Os meus desejos irei ver nos teus olhos refletidos.
Mas quando for a hora de me calar e ir embora sei que, sofrendo, deixarei você longe de mim.
Não me envergonharia de pedir ao seu amor esmola, mas não quero que o meu verão resseque o seu jardim.
(Nem vou deixar - mesmo querendo - nehuma fotografia.
Só o frio, os planetas, as ninfetas e toda a minha poesia)

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De doer, né??? De arrepiar... essa submissão com o tom irônico que ela (a autora) tem de sobra deu a pitada final do poema. Sou fã, muito fã dessa mulher. Para mim, ela tem uma criatividade sem fim! Só me decepcionei quando tatuei o braço e depois vi que ela tem uma bem parecida, no mesmo lugar... kkkkkkkkkk... Pelo menos a coincidência não aconteceu com uma 'Carla Perez' da vida ou com alguma 'Mulher Fruta", né??? :p

que bobagem...

Parafraseando mais uma vez:


"é melhor mesmo continuar escrevendo
essas frases curtas, que assim amontoadas,
dão um ar de coisa, coisa pensada,
e nem é, sabe? nem é importante..."



"sinto-lhe como ponte elevadiça.
subo. desço.
entro e saio.
jamais fico,
jamais ao lado.
somente embaixo,
somente em cima."



"a culpa não é sua, nem minha.
mas serei eu a que irá arder nas chamas,
porque bruxos não existem."


(bruxos não existem: existem os medíocres, fracos na linguagem e nos poderes comuns do homem)!



Por sed non satiata * 4:44 PM

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[Terça-feira, Setembro 15, 2009]


O sofá almofadado não é tão interessante como o tapete em tons pastéis, posto no chão da sala, quando o que eu quero é esticar as pernas, depois de fazer amor. O tapete, seguindo a languidez dos corpos, acolhe sem tocar todas as partes que queremos expor. A garrafa de vinho, já seca e derramada no chão, dá o aroma que nos falta, entre cigarros e beijos. As risadas quase acordam quem não quer ser acordado. É um clima pós-jogo, que acabou como strip-jogo e que perdeu a candura no primeiro jogar dos dados. É um clima de saudade, mesmo havendo o convívio diário. É o que alguns chamam de amor... É o que todos chamam de felicidade.

A fome de dentro saciada pelos dotes culinários dele e a fome de fora “enganada” pelas preliminares das horas anteriores dão a certeza: samba e amor até mais tarde, muito sono de manhã, mas nenhuma oportunidade de dormirmos... é a rotina de quem não tem a quem prestar satisfação, mas que tem muito mais o que fazer.


“Será que é tão difícil amanhecer?
Não sei se preguiçoso ou se covarde...
Debaixo do meu cobertor de lã...”


Por sed non satiata * 5:12 PM

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Lá fora o de sempre insiste em aparecer – “Oi, como vai? Vim ver como você está. Quer-me por perto? Que bom que tudo está em paz na sua vida... saudades das conversas....!” -: é o olho gordo que cobiça a alegria alheia. Eu respondo: Não, obrigada, e sai da frente do sol, por favor. Não me tire o que eu já tenho independente de você.
Bem perto dali, os “mesmícios” sobrevoam. É a “nuvem do não saber” que rodeia as cabeças dessa gente. São os que se enchem de rótulos e clichês e insistem em aparecer... típicos personagens de novela, arquetípicos personagens da vida banal.


Por sed non satiata * 5:10 PM

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[Quarta-feira, Setembro 02, 2009]


Egocentrismo pueril

Definindo pitagoricamente a Filosofia como sendo o amor à Sabedoria, definindo com pitadas de Heráclito e Parmênides o rio metafórico como nunca tendo as mesmas águas, metaforizando todo o aparente do Homem, reescrevo minhas habituais linhas meditabundas com a fome infinita de um conhecer-algo. Gasto meus dias digerindo o engolido nas aulas, na rotina e nos afazeres. Mastigo páginas de livros e revistas, cada uma no seu sabor e aroma, cada página na sua cor... e tempero com as aulas de Olavo de Carvalho, na coleção de DVDs. Para canalizar e digerir tanta ingestão de hipercalorias, dedico as noites de sexta ao som do “Zé”, ótimo intérprete do meu Chico.

Meu pai um dia disse que não se admira por eu ter escolhido um “homem das artes” para preencher minha vida, meu coração e meu ventre. Eu sempre tive um pé ali. Ora na música, ora na Literatura, sempre na Filosofia... aqui e acolá inventando uma dança e uma pintura, colecionando pincéis e tons de tinta, coreografando ritmos de bolero, recitando poesia no chuveiro. Talvez por isso eu seja um pouco cética, crítica e cítrica. Não é tudo que me apetece. O pouco não me impressiona. O medíocre não me intriga. Por isso fuço, caço, procuro sempre mais... misturando latim com alemão: sed non satiata – für immer.


Por sed non satiata * 3:55 PM

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[Quinta-feira, Agosto 20, 2009]


- Sabe, estou convencido de que é preciso aceitar a vida tal qual ela nos é oferecida, tal como nos é dada – disse o velhinho, enquanto esperávamos a fila do supermercado andar.

Até agora não entendi por que ele não entrou na fila especial. Mas, para não deixá-lo sozinho diante de seu desabafo retórico, improvisei uma resposta para aquele início de diálogo inesperado e fora de contexto.

- É? Err... bem, é verdade, Sr. É o primeiro mandamento, antes do decálogo...

Ele ficou em silêncio, em meio àquele engarrafamento de carrinhos, e apenas balançou a cabeça. Calou-se. Pensei que com minha resposta (aparentemente interessada) ele tivesse desistido de prolongar o assunto, e até fiquei com vergonha, pensando: “putz, falei besteira?!”, mas ele continuou a balançar a cabeça, num intervalo de tempo constrangedor e até cômico, e continuou a balançar a cabeça, e continuou...

Procurei algo qualquer na minha bolsa, só para disfarçar o silêncio. Ele continuou a balançar a cabeça, como quem concordasse. Eu, a essa altura, de tão nervosa, já tinha esquecido até o que eu tinha dito...

- Próximo! – gritou a moça do caixa. A madame do perfume azedo despejou suas compras na esteira rolante.

-...Todos os acontecimentos estão nas mãos de Deus e não sabemos nada do futuro deles – recomeçou o velhinho.


Embora eu não concorde com esse pensamento religioso de aceitação e tudo mais, prossegui na retórica inusitada:

- É..é. Aceitar a vida tal qual ela nos é oferecida é aceitar o imprevisível e... – fiquei com medo de um novo silêncio.

- Isso. Uma criança é a própria imprevisibilidade.

-É... – eu não sabia o que exatamente responder, nem o que ele queria ouvir – ninguém sabe o que ela se tornará, o que ela trará... a criança é realmente a personificação do imprevisível.

- É – e sorriu – . Outra pausa desesperadora.

-Hehe, glup, e é justamente por isso que é preciso aceitá-la, digo, aceitar a vida, digo... É. Senão você vive apenas pela metade, vive como quem não sabe nadar e se debate perto da margem; já o oceano só é verdadeiramente oceano quando perdemos o pé... – falei, já empolgada com o avanço do diálogo. Esperei empolgada pela conclusão dele. A madame do perfume azedo olhava para nós, enquanto a moça do caixa somava os preços da mercadoria dela.

- É isso mesmo – respondeu o velhinho – é isso mesmo. Eu sei nadar, sabia? Aprendi com minha neta. – imaginei que ali ele estava metaforizando, ainda no contexto... – você me lembra a minha neta.

- Er, aham. Que idade tem sua neta?

- Quem?

- Sua neta.

- Não, eu não tenho neta. Quem falou em neta aqui? Tenho dois netos. Meus netos gostam de futebol, mas ninguém torce pelo Flamengo. Só minha neta.

- Ah, er, ok.


(silêncio)


- Essa cicatriz aqui eu trago dos meus tempos de exército.

- Ahn, é? – pensei em perguntar: “como foi?”, mas era arriscado demais. Vai que ele responde: “como foi o quê?”...

- É. Hoje vou comprar chá mate e leite, não gosto de sopa. Sempre me dão sopa, to cansado de sopa! Hoje resolvi vir às compras sozinho. Prefiro pão com queijo, mas minha dentadura fica caindo.

- Hehe, é, chá mate é...massa.

- É. A juventude de hoje só quer saber de celular, no meu tempo eu mandava telegrama.

- Aham?!

- o chá mate está em promoção. Também estou trazendo mais pilhas para o controle da TV.

- Pois é... às vezes faz bem uma TV e... bem, pilhas são importantes né... digo, aham.

- Sopa me dá gazes. Fico todo borrado, é água demais.

- Hehe, é. – busquei algo de novo na bolsa.

- Uma vez, tomei dois pratos de sopa e...


PRÓXIMO!! – gritou a moça do caixa. E o velhinho, bem vestido e aparentemente lúcido, começou a despejar organizadamente suas compras na esteira. Coincidentemente e providencialmente “lembrei que me esqueci” de pegar a comida para meu, err, papagaio, ali no departamento de pretextos a granel. Saí da fila em direção ao nada. Devolvi à prateleira todos os meus saquinhos de sopa. Substituí por pilhas para a TV. Pus no carrinho algumas caixas de chá mate, estavam realmente em promoção.


Por sed non satiata * 3:56 PM

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Neste país – e em tantos outros –, as pessoas não respeitam a manhã. São acordadas brutalmente por um despertador que interrompe o sono com uma machadada e entregam-se logo a uma pressa funesta. Alguém saberia dizer que espécie de dia vai ser esse que começou com tal ato de violência? O que pode acontecer com pessoas às quais o despertador administra diariamente um pequeno choque elétrico? Sendo assim, traz aqui para mim um copo de leite com Nescau e volta para a cama... Vem dormir, pois ainda são seis, vem que ali no berço do quarto ao lado só há despertar daqui a duas horas, e aqui o lençol está quentinho demais para ser abandonado. Ah, antes que eu me esqueça, põe o despertador no lixo. Agora, me beija.

Por sed non satiata * 3:31 PM

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[Sábado, Agosto 15, 2009]


Para uma sexta-feira em casa, um vinho barato e alguns “lapsos de leitura”: descobri Martin Buber. Frente ao cansaço acumulado da longa semana, a saída habitual torna-se supérflua. Até o “zé que canta meu Buarque” das sextas foi procrastinado. Questionamentos na velocidade 1.00 mIU/mL pressionam meu juízo para o ponto máximo da tensão, e dessa maneira encaro o cotidiano como um jogo de tabuleiro, com dados. A duas casas da chegada (quando o fruto é colhido e alfabetizado), por ironia do destino, jogo os dados, mexo o peão materno e leio: volte ao início. Ao início? O instinto suplica, procuro explicações plausíveis e soluções um tanto racionais, mais do que uma cabeça de mãe, sensível por natureza, pode raciocinar. É o instinto lutando contra as circunstâncias prematuras. Resta a dúvida no ritmo de “até segunda-feira”, que é quando volto ao estado normal da minha consciência, ao buscar mais respostas. Por enquanto, mesclo ansiedade e paciência... e continuo na vida de sempre, na vida boa de sempre, e por que não dizer: na movimentada e boa vida de sempre,“à frente”, de sempre...

Por sed non satiata * 1:02 AM

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[Quinta-feira, Agosto 13, 2009]


Em clima de metafísica vem o cansaço da semana, preparando o território para o fim de semana niilista..
Entende?

-


O Lutador (Carlos Drummond de Andrade)


Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem 3 há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se conclui 8
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.
-
perfeito...

...Amo e odeio a Metafísica.
Comendo a deliciosa macarronada do shooni, putz! Calorias supérfluas, mas por motivos justos (glup)




Por sed non satiata * 10:57 PM

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[Sexta-feira, Agosto 07, 2009]


A misantropia da preguiça

Como um grunhido berrado em alto falante, o despertador rasga a seda do sono. Já são sei horas da manhã, mas o sono não dá trégua. O lençol aquecido parece paralizar o corpo. O travesseiro, moldando meu rosto, parece sussurrar no meu ouvido: “mais cinco minutinhos...!”. O ronco do corpo nu ao lado do meu seduz como canto de sereia, como caindo nos braços de Morfeu, embalando a preguiça. Dentro da melodia onírica, ouço o grunhido do aparelho mais uma vez. Por um minuto, alguma voz presente no meu sonho quis justificar o barulho, dizendo: “alguém atende esse telefone!”, mas foi em vão, eu já havia acordado. E aí me lembrei que aquela coisa de Peter Pan não existe (às vezes), um dia a gente tem que virar gente grande e cuidar do que é seu. “Mas ow, só mais cinco minutinhos...”, diz em sussurro mais uma vez o travesseiro... e eu obedeço.

Elaboro o discurso de sempre, todas as manhãs: mas e se eu dormir mais, só mais um pouquinho? – e sempre acordo antes de obedece-lo. Ou não? Ou será que sonho que me levanto e permaneço ali, inerte?

Não sei se a cama, por si só, com seus lençóis, fronhas e aromas... é sedutora e atraente, ou se a minha pretenciosamente parece ser assim. Não sei.

Sei que os ares do último semestre têm tido um perfume inigualável, ainda mais vivendo aqui no sétimo andar do apartamento novo. Quiçá eu viva no camarote da Torre de Babel, observando tudo lá embaixo, à paisana. Observo as gralhas, os abutres e os ratos – roendo os ossos, comendo a carniça e espalhando pragas e sons de agouro. Vejo o “homem, lobo do homem” refletido nos semblantes alheios, passando por cima de tudo e traindo os iguais.

(como é difícil exercer a simpatia pré-moldada, como é árduo o esforço de abstrair parasitas, vermes e vírus em um simples “oi, tudo bem?”. A simpatia obrigatória e o falso agrado são inevitáveis para sobreviver sem enxaquecas.)

Com o relógio marcando 10 minutos depois do primeiro grunhido tecnológico, decido me levantar. Mas aí o travesseiro, como aquela alegoria do diabinho e do anjinho nos ombros, sussurra em tom peremptório: “deixa o mundo lá fora do lado de fora, dorme, dorme mais! Se isole mais um pouco, se encolha nessa colcha florida aí e acorde só mais tarde...”; e aí até tarde alimento minha tendência à misantropia, no “lar, novo lar”, no sétimo andar, do lado da sombra e com vista para o amar.


Por sed non satiata * 8:30 PM

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O que um dia foi navalha, hoje é pétala. O que um dia achou que poderia ferir, hoje faz cócegas, perfuma e renova meu sarcasmo, dia após dia. Renova inclusive meu esquecimento. O que só trazia na pele, nos anseios e nos olhares o negro nefasto, hoje toma uma distância confortável. Existirão sempre as vertentes da inveja e do chamado “mau olhado”. O que faz a diferença é a maneira como abstraímos toda a mediocridade: como sempre, repetindo e parafraseando o poeta e compositor: quem ri melhor é quem ri no fim.

(Sabendo disso eu não quero rir primeiro... pois o feitiço vira contra o feiticeiro...)


Saudade daqui!

Por sed non satiata * 8:10 PM

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[Segunda-feira, Maio 25, 2009]


Nos goles daquele encorpado vinho tinto, nas notas daquela música de praxe, no molde dos quadris naquele sofá macio, descobrimos como chegamos até aqui. Rimando o som dos beijos com o dos suspiros, mal vimos a noite entrar nas 3 da madrugada.

Nicho de paixão, ode, lira, ficção - uma perfeita combustão de versos emparelhados. Luz de sonata, decibéis de bravata, e as rimas não paravam...!; eco de alaúde, seria quase ilude...e temos substantivo e adjetivo. Ora bem barroco, ora pós-moderno... dou-lhe a antítese, debaixo do lençol. Em rimas internas e aliterações, ele - improvável, indomável cristal intacto - uma vez partido, emite um grito de animal no cio: enche de pedaços o espaço onde se situava neutro, homogêneo e inerte. Pedaços percorrendo o chão: calcinha, sutiã, camisa, meias...

Chamem como quiserem: metalinguagem, análise sintática ou até mesmo morfológica, se preferirem. De qualquer maneira, não deixa de ter a conotação primordial... a da carne, da paixão e da fome.

(Já diria Nelson Rodrigues: sexo sem amor é como uma mera mijada!).


Ao fundo:

"E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"

Por sed non satiata * 12:11 AM

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[Domingo, Maio 17, 2009]


Do céu da boca caem as palavras, e ao dispor, põem-se. À ponta da língua, vão (no duplo sentido mesmo); vã também a nudez: repetitiva, viciosa! Tateiam o átimo de dizerem-se. Inquietos salivam ante espera e véus, por rasgarem-se. Marcas nas costas, as unhas por cortar. Roupas no chão, vêem-se as veias. Indecisas, saltitam suaves; línguas e dentes, quase falam. Represam-se. Dos lábios o limite assusta – transpor, sair -: esquivam-se. Pausa para um descanso...! Inexaladas, na boca ficam os temperos. Desengatilham. Expiram-se. Inspiração cotidiana, em cima da cama.

Por sed non satiata * 10:57 PM

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É a inauguração de palavra; o improviso sobre o que não se ouviu até; o encontro de duas palavras pela primeira vez; é quando a tarde está competente para dálias - como diria Manoel de Barros - ...; é a caneta cuspindo mágica, o papel gozando e o teclado delirando; é a cara de bobo em nós a render-nos: é isso aí; diz-se de encantamento de palavras e afins; é a lira onde dança o arco; é a combustão de nervos; são revelações surpreendidas; é a catarse do desassossego; é crepúsculo, aurora e sobretons; é o feminino de homem; é subtrair o discurso que talvez fosse; é enxotar o prático da palavra; é um canto semi-árido; é Antígona que encara; é sopro que desinquieta; é sílaba e suspiro – parafraseando Pablo Neruda -...; é voar fora da asa; é desenhar o cheiro das árvores (aludindo a Manoel de Barros, novamente); é não ter altura o silêncio das pedras; são os delimites da palavra; é passar anos penteando e desarrumando frases; é o lado de lá do espelho de Narciso; é desconter o desejo; é vôo que só um estabelece e os demais observam e admiram; é transfigurar as coisas para querê-las; é lamber no eterno a cria; é bruxaria sedutora (sem mediocridade!); é o infinito no homem:


POESIA!


Por sed non satiata * 10:45 PM

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Hospedado entre a minha epiderme e o campo do inteligível, este vírus se proliferou numa pressa sem fim. Sucumbiu à razão, mas logo em seguida concordaram que a melhor opção estava em andarem lado a lado, para que não fosse fatal. O vírus contaminou e foi contaminado, entre mucos e suores. Transmitido pela saliva, pelo contato físico, pelo olhar, pelo ar, verbalmente ou telepaticamente – de todas as maneiras, sem cautela. Não descobriram a vacina para prevenção ou tratamento; não descobriram quando o contágio se dá (só como acontece); não sabem quem foi o primeiro a ser contaminado; médicos e analistas não souberam explicar por que justo naquele dia minha imunidade estava baixa...e ainda lamentaram: “Desculpe, não há remédio. Mas, se quiser, tem como você conviver com ele [o vírus] durante quantos anos quiser viver, basta se cuidar.”

... mas o fato é que fui mais uma a ser contaminada pelo vírus mais insolente/perigoso/fatal/intenso já descoberto até hoje:

O AMOR!


Por sed non satiata * 10:29 PM

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[Terça-feira, Maio 05, 2009]


A SOLIDÃO E O ESPELHO

Era uma tarde atípica quando tudo aconteceu. E aí me deu o estalo – mais um pedaço do consistente véu saltou dos meus olhos... E acredito que de dentro da caverna eu tenha até dado uns passos adiante, me aproximando da claridade e da lucidez, aonde pertinho costumo passar diariamente, muito embora ainda não habite nelas.

Era uma tarde atípica, como falei. Pelo menos assim a defino hoje em dia, em meio à rotina de filho e marido, faculdade e bukowskiorismo-de-fins-de-semana. Foi em uma terça, quando não tenho aula, nem reunião do PET, nem alemão. É o dia de não sair da redoma. Nas terças diferentes dessa eu teria ficado em casa, comendo pipoca e cuidando do pequeno príncipe, lendo um livro e fazendo papinhas, ouvindo música e namorando, arrumando a casa e vivendo a boa rotina. São assim as terças-feiras. Mas nessa decidi ir ao shopping trocar um livro que ganhei de presente, embora repetido. Nessa terça, por volta das 16h, entrei no carro e segui a avenida, a BR, as ruas e os semáforos. Era um dia chuvoso, - ou plúmbeo, como descreveria Fernando Pessoa... Mas ainda grisalho na minha descrição. Em outra narrativa esse detalhe climático não faria tanta diferença, seria meramente mais um clichê descritivo ou algo do tipo, mas nesta a chuva tem grande importância. Como chovia! Mal se via o metro seguinte de asfalto, mal se enxugava os pingos com o pára-brisa. Os carros marchavam em poucos 60km/h (em média), mas por me encantar um dia assim – chuvoso e úmido - , apenas pus os fones de ouvido e continuei o percurso embaçado. Dobrei algumas esquerdas e direitas e então cheguei ao shopping. Peguei o ticket do estacionamento e procurei uma vaga, mas devido à chuva, todas vagas próximas da entrada já estavam ocupadas. Posicionei o carro lá onde o vento fez a curva, suspirei fundo e não pensei duas vezes: saí andando vagarosamente até a entrada principal, debaixo de uma chuva densa e apressada. Eu estava zen demais para me preocupar com o fato de que me molharia toda...

Foi aí que a chuva se tornou o personagem crucial do enredo. Se não fosse por ela, eu teria seguido direto para a livraria, quiçá comprasse um café no meio do caminho ou olhasse umas vitrines no meio do percurso, mas talvez não fizesse a mesma diferença e até acredito que nem causaria o mesmo impacto do véu e da lucidez como a chuva provocou. Por causa da roupa ensopada e do cabelo molhado, dobrei à direita em direção ao banheiro, e lá entrei.

Como qualquer moradora-padrão de cidade grande impregnada pelo cotidiano maquinal e frígido, adentrei o banheiro olhando para o abstrato (às vezes para o chão, às vezes para o nada, às vezes apenas para aquilo que me interessava no momento: vaso sanitário, espelho, pia) e não dei importância ao que havia em volta (creio que lá dentro estávamos só eu e a senhora que faz a limpeza). Ainda abstraída, sentei a bolsa em cima da pia e rapidamente busquei o pente e uns broches de cabelo. Como já não havia penteado e franja que agüentassem os pingos que levei, penteei tudo para trás, e senti um alívio... puxa! Me dei conta que outro banho de chuva como aquele, sem compromisso, vaidade e programação, só quando eu fui criança... aquilo tinha me renovado. Talvez uma experiência frívola, mas ainda assim enorme (quase eterna enquanto durou) e agradável!

Enquanto prendia o rabo-de-cavalo, subitamente a porta do banheiro se abriu com força, sendo empurrada bruscamente. Num ambiente como esse ninguém costuma observar quem entra e quem sai (talvez só a mulher da limpeza), mas por causa do barulho da pancada na porta, me virei para olhar. Entrou uma jovem em direção aos espelhos. Aparentava ter alguns 20 e poucos, como eu. Acho que um pouco mais velha. O cabelo, cortado no nível dos ombros, estava solto e seco (provavelmente a chuva não a pegara), mas ainda assim vi molhado o rosto, mesmo que pouco, até acho que vi umas duas lágrimas quase secas, talvez roladas há alguns minutos, um choro contido, quem sabe. Era muito bonita. Muito mesmo. Tinha altura e formas de modelo. Estava vestida num estilo básico: nem desleixada, nem muito enfeitada. Talvez ela tivesse acordado naquele dia com um humor neutro, olhado suas roupas e escolhido: “hoje me vestirei de coisa alguma.”. E assim ela estava, expressando personalidade alguma na forma de vestir, nada que nos fizesse adivinhar como e quem ela seria e do quê ela gostava. Apesar disso, sabia-se que ela tinha bom gosto. Seu esmalte vermelho me chamou logo a atenção. Suas mãos eram finas, percebi quando ela as apoiou na bancada da pia, paralelas e palmadas no mármore. Essa posição dos braços fazia com que os ombros se encolhessem curvados para frente, e enquanto isso ela fixava a vista no reflexo do espelho. Inerte. Imóvel. Muda. Não piscava, não piscava, não piscava... Cheguei a achar que ela morrera em pé, bem ali mesmo, talvez numa descoberta de seu logos, como aconteceu com o arquetípico Narciso. A respiração não entregava o estado dela, não estava ofegante nem relaxada. Era uma Monalisa sem sorriso e sem melancolia, misteriosa no seu tom de seriedade incógnita. De tamanha a pausa dela nessa posição, eu e a moça da limpeza não agüentamos e nos entreolhamos por algum segundos, dei de ombros e me virei novamente em direção ao espelho, agora fingindo lavar as mãos. O silêncio naquele banheiro começou a contrariar, aquilo já me intrigava... e pronto: a abstração de quando entrei no recinto foi substituída por “algo de humano ou sensível”. Tentei perguntar algo, está tudo bem, moça, aconteceu alguma coisa, posso ajudar, o que houve, mas não saiu uma palavra do meu devotamento curioso. A “pausa dramática” era tamanha que já me constrangia. Olhei para a moça da limpeza atrás de algum comentário, mas essa já havia desistido de sentir curiosidade e continuou a passar o pano na entrada. E a moça não se mexia. Talvez ela tivesse discutido com o namorado, ou sido demitida, ou algo que se inclua no conjunto de dilemas genéricos. Busquei solitariamente encontrar esses dilemas na sua expressão de Monalisa-sisuda-embora-serena, mas nenhum se encaixava, como era possível? Balbuciei ainda um “caham-caham” na esperança de que ela ouvisse e olhasse para o lado, dando uma pista, saída da bolha, mas foi em vão. Eram apenas ela e o espelho, solidões do reflexo e do objeto que reflete.

Demorei a entender, mas depois de enxugar as mãos e decidir sair dali para beber um expresso e fumar um cigarro no estacionamento, me dei conta... Aquela mulher, aquela mulher: ela nada mais era ali do que um protótipo. Um arquétipo, quem sabe? Nós, seres humanos, reproduzidos em bilhões pelo mundo, mas na intrínseca solidão do mirar o espelho; nós, sempre buscando um logos que nunca chega, respostas que nunca vêm, apenas enxergando o aparente; egos que olham para si da mesma maneira como olhamos nossos umbigos, nunca discernindo o além-reflexo; Narcisos incapazes de evoluírem, solitários nas respostas de sempre, no reflexo de sempre que o espelho lhes dá. É a solidão. O espelho, por sua vez, solitário também ele, coitado, quando se faz obrigado a refletir apenas uma parte do Ser, o que pára na sua frente e vai embora, apenas exibindo o aparente.

Acho que naquele momento entendi o que realmente aconteceu dentro daquele banheiro: almas gêmeas se encontraram.


Por sed non satiata * 1:49 AM

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Antes do Caos, da Terra, do Tártaro e de Eros, antes das potestades que pulsam nas Origens, tenebrosas potências do abismo primordial, antes que as dez mil valvulas abertas de Gaia parissem Gigantes, Titãs e Ciclopes, antes da guerra entre os monstros da noite e a lúcida força do dia, antes de tudo, filho de um rio e de uma ninfa da água, Narciso, o filho de Náiade, deitava de bruços e se olhava no trêmulo espelho da fonte, Narciso de olho em Narciso, beleza de olho em si mesma, cego, surdo e mudo aos apelos de Eco, a ninfa apaixonada, chamando Narciso, Narciso, a água da fonte repete o rosto de Narciso, reflexos de Narciso nos ecos da ninfa, água na água, como a luz na luz, luz dentro da água.

**********

Durante um minuto contemplei-o, fascinada. O calor que se desprendia dele vinha até mim e contaminava-me como uma vaga escarlate. Reescrevo Baudelaire, feliz e revigorada...

Por sed non satiata * 1:22 AM

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[Quinta-feira, Abril 23, 2009]


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E, este Eu que cria, que quer, e que dá a medida e o valor das coisas, este Eu, e a contradição e confusão do Eu falam com a maior lealdade...."
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(Nietzsche)


traduzindo: sou SIM sempre leal nas contradições, nas exceções, nas ações e nos pensamentos. Êba!

Por sed non satiata * 11:23 PM

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Se o deslumbramento agora é subvertido em olhar através da paisagem de concreto do lado de fora da janela, não me admira que eu não saiba mais proferir o lirismo de antes. Viver em apartamento está muito longe de ser um completo “lar, DOCE lar”, apesar de ter uma vida perfeita. São paredes hermeticamente posicionadas, passos do andar de cima, botões de elevador, interfone, porteiro e mil carros. Mas, se eu ignorasse por ora toda essa cena urbana e cotidiana, provavelmente eu falaria da noite anterior de sono em conchinha e sexo, da temperatura do lençol ao acordar...; descreveria meu ato de espreguiçar as articulações e músculos, quase sempre desastrada. Narraria o modo como levo tempo no banheiro entre banho, cremes, escovar os dentes, pentear os cabelos e passar o desodorante, ainda sonolenta. Confessaria meu hábito de voltar escondida para debaixo dos lençóis, só para ser acordada de novo. Falaria dos lapsos metafísicos quando aquela barba roça no meu corpo... É capaz até de na empolgação confessar que na maioria das vezes procrastino o café da manhã para ronronar e babar no travesseiro e desconto o apetite no almoço, sempre tarosa por legumes e verduras. Se o chá de erva-doce com hortelã fosse mencionado, com certeza eu falaria que um cigarro tragado na janela o acompanha. Entre tais fatos diários, o gordinho perambula para cá e para lá, bagunçando de uma forma impressionante e inimaginável (os meus esmaltes no caminhãozinho, o lego dentro do chuveiro, a chupeta do lado do mouse, a mamadeira debaixo do sofá, os carrinhos atrás da fruteira). Mas tudo isso já não sei descrever de 100 maneiras diferentes... Alguns dizem que isso se chama rotina. Uns aqui e acolá preferem balbuciar algo do tipo “tautologia”. Eu digo: é a vida que não troco por nenhuma outra! Apesar de sorrir sorrisos pontuais e beijar com a boca de hortelã (e ter blog) fazerem parte de muita gente, apesar de as cartas de amor serem tolas... Concordo que falar de Amor (para quem vive em constante amar) acaba sendo banal. Mas sei que todo mundo vai admitir que isso se faz necessário. É disso que o Homem vive, de amar algo!!! Seja um livro ou um shampoo revolucionário. Até o mais convicto dos niilistas ama. Apesar de repetitivo, cada vez mencionado o Amor é único e original. O amor é lindo, dane-se se for em maiúsculo ou minúsculo, mas é lindo, mesmo que exista um diferente a cada 3m²! E danem-se os filmes pornôs: banalizam (ou não) o sexo, mas para mim o ato continua sendo subjetivo e digno de verborragia! Assim como o concreto da rua, pois ele também não tem culpa de nada.

Por sed non satiata * 10:58 PM

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[Quarta-feira, Abril 15, 2009]


Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.

Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados,
Mas tão-somente
Satélite.

Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!

Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
- Satélite.


(Manuel Bandeira. "Estrela da vida inteira". 4. ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1973. p. 232.


_

E como diz Cecília Meireles, “tenho fases como a Lua” (E quem não tem? É a dicotômica e inerente incoerência que remete ao claroescuro, noitedia, bemmal, amoródio...). A minha fase da vez é a cheia – entupida – de cor, música e amor. Saltitante e tranqüila... Um paradoxo e tanto, principalmente hormonal..., para quem está na fase que deveria ser denominada TPM. No meu caso é o contrário: fico zen, romântica e boazinha. Não que eu seja o oposto disso no resto do mês, imagina!, o fato é que fico exageradamente mansa, pronto (jurando que sou um amor de pessoa, ein?).
Ouvindo (confesso, pulando no meio do quarto com o DVD do Depeche Mode, tirem sarro!)..., enquanto o maridão foi pro jogo com o sogro e o filhote já dorme ali no berço. Enfim, sós, nher nher nher... eu e meu autismo. Queimar calorias com música e ritmo (o meu é péssimo) é bem mais divertido do que morgar numa academia.

Leiam o livro novo do Chico! Leite derramado. Admito que eu sou uma chata quando o assunto é o compositor de “Corrente” e “Abandono”, mas não dá para fugir do hábito. Antes de querer me afirmar sempre como fã número 1 ou “super-intelectual-de-boteco”, admiro bons autores (e compositores também, no caso desse). O livro é fabuloso. Esse o gordinho não rasga tão cedo... quero dizer, pode até rasgar, porque ele pode TUDO na minha vida. (suspiros)
Hoje não estou tão lírica assim... não como desejo estar. Tchau, vou dançar.

_

ps: - Trecho do livro para vocês (este é o que tem sido publicado na internet nesses dias)!

“Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das jóias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim, suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e não tinha a austeridade da minha mãe. Minha mulher gostava de sol, voltava sempre afogueada das tardes no areal de Copacabana. Mas nosso chalé em Copacabana já veio abaixo, e de qualquer forma eu não moraria com você na casa de outro casamento, moraremos na fazenda da raiz da serra. Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras de meu avô. Mas se você não gostar da raiz da serra por causa das pererecas e dos insetos, ou da lonjura ou de outra coisa, poderíamos morar em Botafogo, no casarão construído por meu pai. Ali há quartos enormes, banheiros de mármore com bidês, vários salões com espelhos venezianos, estátuas, pé-direito monumental e telhas de ardósia importadas da França. Há palmeiras, abacateiros e amendoeiras no jardim, que virou estacionamento depois que a embaixada da Dinamarca mudou para Brasília. Os dinamarqueses me compraram o casarão a preço de banana, por causa das trapalhadas do meu genro. Mas se amanhã eu vender a fazenda, que tem duzentos alqueires de lavoura e pastos, cortados por um ribeirão de água potável, talvez possa reaver o casarão de Botafogo e restaurar os móveis de mogno, mandar afinar o piano Pleyel da minha mãe. Terei bricolagens para me ocupar anos a fio, e caso você deseje prosseguir na profissão, irá para o trabalho a pé, visto que o bairro é farto em hospitais e consultórios. Aliás, bem em cima do nosso próprio terreno levantaram um centro médico de dezoito andares, e com isso acabo de me lembrar que o casarão não existe mais. E mesmo a fazenda na raiz da serra, acho que desapropriaram em 1947 para passar a rodovia. Estou pensando alto para que você me escute. E falo devagar, como quem escreve, para que você me transcreva sem precisar ser taquígrafa, você está aí? Acabou a novela, o jornal, o filme, não sei por que deixam a televisão ligada, fora do ar. Deve ser para que esse chuvisco me encubra a voz, e eu não moleste os outros pacientes com meu palavrório. Mas aqui só há homens adultos, quase todos meio surdos, se houvesse senhoras de idade no recinto eu seria mais discreto. Por exemplo, jamais falaria das p_tinhas que se acocoravam aos faniquitos, quando meu pai arremessava moedas de cinco francos na sua suíte do Ritz. Meu pai ali muito compenetrado, e as cocotes nuinhas em postura de sapo, empenhadas em pinçar as moedas no tapete, sem se valer dos dedos. A campeã ele mandava descer comigo ao meu quarto, e de volta ao Brasil confirmava à minha mãe que eu vinha me aperfeiçoando no idioma. Lá em casa como em todas as boas casas, na presença de empregados os assuntos de família se tratavam em francês, se bem que, para mamãe, até me pedir o saleiro era assunto de família. E além do mais ela falava por metáforas, porque naquele tempo qualquer enfermeirinha tinha rudimentos de francês. Mas hoje a moça não está para conversas, voltou amuada, vai me aplicar a injeção. O sonífero não tem mais efeito imediato, e já sei que o caminho do sono é como um corredor cheio de pensamentos. Ouço ruídos de gente, de vísceras, um sujeito entubado emite sons rascantes, talvez queira me dizer alguma coisa. O médico plantonista vai entrar apressado, tomar meu pulso, talvez me diga alguma coisa. Um padre chegará para a visita aos enfermos, falará baixinho palavras em latim, mas não deve ser comigo. Sirene na rua, telefone, passos, há sempre uma expectativa que me impede de cair no sono. É a mão que me sustém pelos raros cabelos. Até eu topar na porta de um pensamento oco, que me tragará para as profundezas, onde costumo sonhar em preto-e-branco.”


ai, gozei - acendendo um cigarro
snif snif snif!

Por sed non satiata * 10:33 PM

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[Terça-feira, Abril 14, 2009]


Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei;
Fui-o outrora agora.

(Fernando Pessoa. "Obra poética". Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1976. p. 140-1.)


__


Fui-o outrora agora, quando por acaso no "aleatório" do meu player de ouvido tocou "valsa brasileira", e logo me remeteu ao poema de Casimiro de Abreu ("a valsa") que recitei na minha 5ª série do colégio. Eis uma intertextualidade de "outroras", provocada talvez pelo dia grisalho e fresco de hoje, um "frio" que só os natalenses-da-cidade-do-sol reconhecem, mas ainda assim é inspirador. Se nostalgia provém de "nostos" = volta + "algos" = dor (no seu sentido primeiro e etimológico: a dor do retorno), que maneira gostosa de apreender e absorver a dor da saudade, da lembrança, do outrora! Hoje sou um copo cheio de nostalgia (de uma absorção positiva da dor da lembrança), um copo vazio de tristeza.


Graças a Fernando Pessoa, graças ao Chico de sempre, graças a Casimiro... e graças ao grisalho clima de hoje, do úmido e fresco vento, e quem sabe até graças à xícara de cappuccino que bebo agora.


Por sed non satiata * 2:47 PM

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[Quinta-feira, Abril 09, 2009]


Dois meses sem inspiração...

Hoje em dia (e é um “hoje em dia” que já perdura por uns pares de anos...) todo mundo tem essa coisa de blog. Eu, por exemplo, tenho esse hábito desde 2003... Hoje em dia, como eu ia dizendo, todo mundo escreve, aperta a tecla “enter” e vai criando os versos, elaborados em rimas ou não, sendo metafísicos ou niilistas, muitas vezes com aquela coisa de “hoje acordei com um vazio que não é de fome” ou “procuro respostas que nem quando abro a geladeira as encontro”, ou “minha alma dói e não é diarréia”... mas no final das contas todo mundo acaba se tornando poeta e escritor (usando centenas de vírgulas, como eu). Enter, enter, enter, e é criado o poema. Ora, se até Jabor lança livro!...E cronistas hoje vejo de monte nesses sites e jornais. Sabe, até que isso tem um lado bom para uma pessoa estupidamente cética, preconceituosa e rabugenta como eu: melhor isso do que a quantidade de analfabetos aumentar, não é?? Antes a metafísica subjetiva (muitas vezes clichê e piegas) a ter que ler por aí “rezistro”, “menas”, “meia cansada”, entre outros absurdos.
“ oi, miguxa! Td bm cm vc? Bora pro churras hj? Vai ser mara, tdb! Me add S2 rsrsrsrsrsrsrs”

É, pensando bem... tenho razão.

O que me mantém nessa modinha de querer pensar coerentemente – e expressar tal pensamento – é ainda encontrar bons lugares para boas leituras, principalmente quando provêm de boas pessoas, próximas e queridas. Darei exemplos. Tem uma pitada de mãe e esposa nos escritos da amiga Íris, sempre me estimulando na árdua batalha de formar uma família; tem lirismo e subjetivismo no da Ju (permita-me não falar j-u-l-i-a-n-a, é como quando me chamam de m-o-n-i-c-a, soa estranho!), e este é um de meus prediletos, porque tem o pedaço que fui quando fazia letras - tem poesia, tem âmago (não há como fugir dessa palavra dentro daquele curso!), sentimento e sinceridade. Tem o do Cleo, misturando em suas crônicas aquilo que mais influencia minha vida, depois dos livros: música.

Diante desses e de tantos outros, o que ainda tento fazer aqui? Falar sobre o café na cama que me levaram hoje pela manhã, sobre o sexo no meio da sala pela pressa de gozar – ou pela vontade de acordar os vizinhos insuportáveis - ou falar do café que bebi na faculdade enquanto saboreava um cigarro e matava a aula das 17h para ler “um copo de cólera” pela 45ª vez??? Tudo isso de novo?

Inspiração, cadê? Letárgica em comportamento e rotina, preciso que me derrubem da cadeira do 'ócio nada criativo' e me façam engatinhar para um novo estímulo. Não me refiro à vida que tenho, esta sempre é bem vinda em forma de sorrisos expressivos e é sempre feliz, mas me refiro ao que há dentro dela, debaixo dos meus cabelos e no percurso da minha garganta. Prometo dedilhar as teclas com cautela!


Por sed non satiata * 11:11 PM

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[Domingo, Fevereiro 15, 2009]


Por mais fútil que seja o hábito de passar o tempo na internet quando deveria fazer qualquer outra coisa que pertença à “vida real”, lamento profundamente não ter tempo e nem inspiração para escrever, como eu tinha antigamente. As palavras não fluem, e o dedilhar no teclado já não tem momento certo. É o filho crescendo, é o semestre começando, é a vida me roubando os segundos e o descanso. E não se trata de uma queixa, muito pelo contrário. Voltarei à Filosofia, ao Alemão, à Fotografia. A vida que estava parada voltou a andar, tal como os carros que passam depressa aqui pela janela. E, por ser mãe, digo e repito todos os dias, “faria tudo outra vez”, porque o tempo que me rouba a maternidade é o mesmo que me dá o maior prazer do mundo, aquele que é entupido de amor e plenitude. Então a falta de verborragia é bem recompensada com VIDA!

Antes de começar a escrever, reli o post anterior. A sensação que tive foi de ter parado em frente a um espelho e não ter me reconhecido, não era o meu reflexo ali. De onde tirei aquilo? Quem é essa? Não se pode generalizar os sentimentos, tampouco radicalizar. O que é o ser humano senão um bicho que ama, movido por paixões, por fome, por desejos, por tesão...? ainda que queira ser uma espécie de misantropo, não se vive sem amar. É impossível. Se alguém opta por viver sozinho, de uma forma ou de outra compensa uma paixão com outra. Acaba por ser fanático por um time, um autor, um cantor, um pintor. Mas é isso mesmo. Talvez a ocasião tenha feito com que algo estalasse na minha cabeça, naquele momento. Dizem que é sempre preciso fechar uma porta para abrir outra, e quem sabe eu tenha conseguido fechar mais uma, mas deixei a chave do lado de dentro... tive que voltar para buscá-la, acabei ficando por lá mesmo. Quiçá não era a hora exata de fechá-la, ou então não era a porta certa, e sim, como em Alice, qualquer outra menor dentro dessa maior. Talvez seja isso! Bem pensado! Felizmente já encontrei essa portinha menor, ali escondida no cantinho dos meus pensamentos. Essa sim eu fechei, tranquei, joguei a chave fora e segui em frente. Nunca deixando de trilhar meu percurso ao lado de quem amo – marido e filho. Estes, cada dia mais lindos, me alimentam a alma e me nutrem de âmago, amor, esperança, força e coragem. Me orgulho por ter uma família perfeita, por ter o “de fraldas” ali cheio de saúde e sorriso, por ter o “de barba e tatuagem” ali cheio de gozo, amor, ternura e afeto; por ter minha vida perfeita, perfeitamente tranqüila, por reconhecer sabiamente que as pedras no caminho constroem o castelo de qualquer relacionamento; por finalmente entender que pessoas que se casam nunca conhecerão por completo o parceiro, e por isso existem as crises. Vence quem as supera, e como prêmio recebe o AMADURECIMENTO. O relacionamento evolui. O amor se renova. O espaço vazio entre as duas pessoas diminui, e tanto que é isso mesmo que vemos sempre em casais com mais de 30 anos de casamento: espaço nenhum entre eles, pois finalmente se conhecem. E tem sorte quem chega até o final desse percurso e diz: valeu a pena ter conhecido tudo. Não desista!

Meu encanto é esse, enquanto Deus quiser.




Por sed non satiata * 11:10 PM

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[Sexta-feira, Janeiro 09, 2009]


Elucubrações nefelibatas.

E quanto às veias de opulento néctar, daquele sangue correndo mais depressa do que o de costume...?; do volumoso anseio, do seio em chamas; do pudor das mudanças, da sensação estranha de finalmente conseguir desprender-me das correntes, estas que prendiam meus pés com tamanha rigidez; da capacidade de erguer o castelo com as pedras que juntei por um longo ano de paciência e sacrifícios, doação e “altruísmo”; do sufoco aliviado ao ouvir os fogos na passagem de um ano para outro, do choro desmedido; do lúbrico desejo de que tudo fique para trás, de que tudo à frente seja o oposto do que suportou friamente. Da incansável vontade de seguir o percurso sozinha, pois é sozinha que etimologicamente e misticamente me chamo, é quando evoluo mais. Saber que por mais cômoda e aconchegante que seja, minha vida deverá ser deixada para trás. Certas coisas não valem a pena, no final são apenas papéis rabiscados com quimeras, rosas secas guardadas em livros já lidos, promessas de amor ouvidas pelos seres humanos, quaisquer que sejam, em todas as eras. Não será diferente disso com ninguém. Por isso, não merece que eu abdique de tudo para viver o que enxergo até num conto de amor ou num filme. Infelizmente aprendi que o egoísmo é a principal regra para a sobrevivência bem sucedida. O romantismo, só em letra maiúscula, para que eu leia e estude. O em minúscula apenas deixa minúscula também toda a existência de um ser pensante, toda a dignidade, todo o amor-próprio.

Ano após ano aumentamos a idade, mas principalmente e primordialmente multiplicamos a lucidez. E é o que ilumina meu novo ano: lucidez. Lúcida de preparativos e conquistas, sozinha e fazendo muita questão de ser assim. Feliz, imensuravelmente feliz.

Como dizem naquele novo desenho animado ...ontem é passado, amanha é um mistério. O “hoje” é uma dádiva...por isso o chamamos de “presente”.


Por sed non satiata * 10:14 PM

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[Sábado, Dezembro 27, 2008]


"video meliora, proboque, deteriora sequor lat".

Em bom português, diz a boa filha que à verborragia torna: vejo as coisas melhores e as aprovo, mas sigo as piores. [Imagem do homem fraco, traçada por Ovídio (Metamorfoses, VII, 20). Vê o bem e o aprova, mas é arrastado pelas paixões.]... sigo o pior dos caminhos: o de exposição e verborragia.

...E assim retorno ao que me nutre e me destrói, tal como expressa a famosa tatuagem da atriz. 'Quod me nutrit...'

Ali ao lado, deixo o link com os textos do meu antigo blog. Aqui, um recomeço. A fênix, a Hiroshima personificada em dialética e neologismos.

e como dizem... "verba volant, scripta manent lat": As palavras voam, os escritos permanecem.
Até.

Por sed non satiata * 12:05 AM

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